terça-feira, 24 de dezembro de 2013

COMPREENDENDO A MENTE E O MEDO (PARTE FINAL)

"(...) Podeis observar uma nuvem, uma árvore ou o movimento de um rio, com a mente relativamente quieta porque essas coisas não são sumamente importantes para vós; mas o observar a vós mesmos é muito mais difícil, porque então as exigências são muito práticas, as reações muito rápidas. Assim, quando estais diretamente em contato com o medo ou o desespero, com a solidão e o ciúme, ou qualquer outro estado repulsivo da mente, podeis olhar de maneira tão completa que vossa mente fique suficientemente quieta para vê-lo?

Pode a mente perceber o medo, e não as diferentes formas de medo; perceber o medo total, e não aquilo de que tendes medo? Se olhais meramente para os detalhes do medo ou procurais acabar com os vossos temores um a um, nunca alcançareis o ponto central, que é aprender a viver com o medo.

O viver com uma coisa viva, tal o medo, requer uma mente e um coração altamente sutis, que não chegaram a qualquer conclusão, podendo, portanto, seguir cada movimento do medo. Então, se observardes o medo, e com ele viverdes — e isso não leva um dia inteiro, porque um minuto ou um segundo pode bastar, para se conhecer a inteira natureza do medo — se viverdes com ele completamente, perguntareis, inevitavelmente: ‘Qual a entidade que está vivendo com o medo? Qual a entidade que está observando o medo, observando cada movimento de todas as formas do medo, e ao mesmo tempo consciente do fato central do medo? Será o observador uma entidade morta, um ente estático, que acumula uma grande quantidade de conhecimentos e informações a respeito de si próprio, e essa coisa morta é que está observando e vivendo com o movimento do medo?’ — Qual é a vossa resposta? Não respondais a mim, porém a vós mesmo. Sois vós — o observador — uma entidade morta a observar uma coisa viva, ou sois uma coisa viva a observar outra coisa viva? Porque, no observador existem os dois estados."

(J. Krishnamurti - Liberte-se do Passado - Ed. Cultrix, São Paulo - p. 24)
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

TUDO É DEUS

"O fruto, o pote e a joia são 'efeitos'. Não existe efeito sem causa. A semente, a porção de barro e a pepita de ouro são as causas materiais. O agricultor, o oleiro e o ourives são, respectivamente, as causas instrumentais, eficientes ou manipulativas. No que concerne à criação da multiplicidade do Universo, apelamos para Ele, Deus. Quando o cosmos se manifestou através da vontade de Deus, surgiu somente do Absoluto, desde que só havia o Uno. Mesmo agora, só há o Uno, a despeito de toda esta aparente variedade. Sobre o Uno sobrepusemos a ilusão dos muitos. Quando no cinema vemos as cenas, a tela branca não é vista; quando é vista a tela, as cenas estão invisíveis. Sem que haja a tela (Brahman), as cenas inexistem. Elas não têm sentido, não carregam mensagem; não comunicam alegria (Ananda).

Deus, portanto, é não só a causa material como a causa eficiente (instrumental do universo). Ele é simultaneamente o ouro e o ourives; o oleiro e o barro; tanto a semente quanto a árvore. Deus é todos os seres. A Natureza é Seu corpo. O Cosmo, Sua vontade. Os Vedas, Sua respiração. A escola de pensadores conhecida como Samkhya declara que o mundo objetivo nasceu da conglomeração e conjunção de desesperados átomos, mas não explica aquilo que os induziu a se juntarem com seus afins para formar modelos e grupos. Como tal necessidade surgiu? Perguntas tais são negligenciadas. Muitos filósofos, especialmente os ocidentais, ignoram esse  problema de identificar a Causa (única) com todos os efeitos que, a cada momento, encontramos em torno de nós. Deus quis, e se tornou tudo isso, em resposta a esse Divino Desígnio, a essa Necessidade Primal. é, o Anthar-Atma (a Realidade Interna) e o Anthar-Yamin (o Interno Motivador). Os Vedas declaram 'Tudo isto é Vasudeva (Deus)', Não há aqui o menor traço de multiplicidade. Há somente o Uno-sem-um-segundo. Realizar e experienciar esta Verdade básica, tornar-se bem-aventurado conhecedor da Divindade que se tem em si mesmo é a Vitória que a bandeira de Prasanthi¹ expressa."

¹ Prasanthi Nilayam (Morada da Grande Paz) - é o nome do principal ashram (morada) de Sai Baba.

(Sathya Sai Baba - Sadhana O Caminho Interior - Ed. Nova Era, Rio de Janeiro, 1989 - p. 78/79)


COMPREENDENDO A MENTE E O MEDO (2ª PARTE)

"(...) Só há o medo total, mas como pode a mente que pensa fragmentariamente observar esse quadro total? Pode observá-lo? Temos levado uma vida de fragmentação e só somos capazes de olhar o medo através do processo fragmentário do pensamento. Todo o processo do mecanismo do pensamento é dividir tudo em fragmentos: Eu te amo e eu te odeio; tu és meu amigo, tu és meu inimigo; minhas idiossincrasias e inclinações, meu emprego, minha posição, meu prestígio, minha mulher, meu filho, minha pátria e tua pátria, meu Deus e teu Deus — tudo isso é fragmentação do pensamento. E o pensamento olha o estado atual de medo, ou tenta olhá-lo, e o reduz a fragmentos. Vemos, por conseguinte, que a mente só pode olhar esse medo total quando não há movimentação do pensamento.

Podeis observar o medo sem nenhuma conclusão, sem nenhuma interferência do conhecimento que a seu respeito acumulastes? Se não podeis, então o que estais observando é o passado e não o medo; se podeis, nesse caso estais, pela primeira vez, observando o medo sem a interferência do passado.

Só se pode olhar com a mente muito quieta, assim como só se pode ouvir o que alguém está dizendo, quando a mente não está a tagarelar, a travar consigo um diálogo a respeito de seus problemas e ansiedades. Podeis, da mesma maneira, olhar o vosso medo, sem procurardes dissolvê-lo, sem trazerdes à cena o seu oposto, a coragem; olhá-lo de fato, e não tentar fugir dele?

Quando dizeis: "Eu tenho de controlá-lo, tenho de livrar-me dele, tenho de compreendê-lo" — estais tentando fugir dele. (...)"

(J. Krishnamurti - Liberte-se do Passado - Ed. Cultrix, São Paulo - p. 24)