OBJETIVOS DO BLOGUE

Olá, bem-vindo ao blog "Chaves para a Sabedoria". A página objetiva compartilhar mensagens que venham a auxiliar o ser humano na sua caminhada espiritual. Os escritos contém informações que visam fornecer elementos para expandir o conhecimento individual, mostrando a visão de mestres e sábios, cada um com a sua verdade e experiência. Salientando que a busca pela verdade é feita mediante experiências próprias, servindo as publicações para reflexões e como norte e inspiração na busca da Bem-aventurança. O blog será atualizado com postagens de textos extraídos de obras sobre o tema proposto. Não defendemos nenhuma religião em especial, mas, sim, a religiosidade e a evolução do homem pela espiritualidade. A página é de todos, naveguem a vontade. Paz, luz, amor e sabedoria.

Osmar Lima de Amorim


Mostrando postagens com marcador verdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador verdade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

VERDADE ESPIRITUAL E SABEDORIA


"A verdade espiritual e a sabedoria não são encontradas em quaisquer palavras de um sacerdote ou pregador, mas no 'deserto' do silêncio interior. As escrituras sânscritas dizem: 'Há muitos sábios com suas interpretações aparentemente contraditórias das escrituras e dos assuntos espirituais, mas o verdadeiro segredo da religião está oculto em uma caverna'. A autêntica religião se encontra em nosso interior, na caverna da quietude, na caverna da tranquila sabedoria intuitiva, na caverna do olho espiritual. Pela concentração no ponto entre as sobrancelhas, sondando as profundezas da quietude no olho espiritual luminoso, podem ser encontradas respostas a todas as questões religiosas do coração. 'o Consolador, o Espírito Santo (...) vos ensinará todas as coisas' (João 14:26)."

Extraído do livro "A Yoga de Jesus", de Paramahansa Yogananda, Self-Realization Fellowship, p.41/42.
Imagem: Pinterest.




terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

CARREGAR SUA CRUZ. QUEM QUISER SALVAR A VIDA, PERDÊ-LA-Á.

"17. Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem e separarem, quando vos tratarem injuriosamente e repelirem como mau o vosso nome, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos nesse dia, e exultai, porque grande recompensa vos está reservada no Céu, visto que era assim que seus pais tratavam os profetas. (LUCAS, 6:22 e 23.)
18. Chamando o povo e os discípulos para perto de si, disse-lhes: 'Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me; pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e aquele que se perder por amor de mim e do Evangelho se salvará'. - Com efeito, de que serviria a um homem ganhar o mundo todo e perder-se a si mesmo? (MARCOS, 8:34 a 36; LUCAS, 9:23 a 25; MATEUS, 10:38 e 39; JOÃO, 12:25 e 26.)

19. 'Alegrai-vos', diz Jesus, 'quando os homens vos odiarem e perseguirem por minha causa, visto que sereis recompensados no Céu'. Essas palavras podem ser traduzidas assim: Felizes sereis quando os homens, pela má vontade com que tiverem agido convosco, vos propiciem ocasião de provar a sinceridade da vossa fé, porque o mal que vos façam redundará em proveito vosso. Lamentai-lhes a cegueira, e não os amaldiçoeis. 
Depois, acrescenta: 'Aquele que quiser seguir-me, carregue sua cruz', isto é, suporte corajosamente as tribulações que a sua fé acarretar, pois aquele que quiser salvar a vida e seus bens, renunciando a mim, perderá as vantagens do Reino dos céus, ao passo que aqueles que tiverem perdido tudo neste mundo, até mesmo a vida, para que a verdade triunfe, receberão, na vida futura, o prêmio da coragem, da perseverança e da abnegação. Mas, aos que sacrificam os bens celestes nos gozos terrestres, Deus dirá: 'Já recebestes a vossa recompensa'."

Extraído do livro "O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, FEB 2018m Brasília, p. 298/299.
Imagem: Pinterest.
 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

SOFRIMENTO

"O Senhor Buda falou da percepção correta como o primeiro passo no Caminho Óctuplo. Ser capaz de ver as coisas como elas são, não através de algum tipo de lentes coloridas, é um dos problemas, talvez o mais importante, que nós enfrentamos. O Buda também disse que a primeira verdade que se deve perceber é a verdade do sofrimento.

Primeiro, a pessoa questiona o porquê de o sofrimento ser uma verdade. Nós sabemos que existe sofrimento por toda a parte, mas perceber o sofrimento da forma que Ele indicou não é fácil. Existe uma tremenda miséria no mundo: milhões de pessoas estão morrendo de fome, milhões perdem suas vidas, suas casas, membros dos seus corpos nas guerras em que tomam parte. Tensões, conflitos e ódio existem em toda parte do mundo: raça contra raça, nação contra nação, religião contra religião e assim por diante. Tudo isso é sofrimento. Quando lemos sobre isso nos jornais, nós podemos dizer: 'Que pena! Coisas horrendas estão acontecendo no mundo'. Mas nós não sabemos realmente o que é o sofrimento. Nós não o vemos com todo o nosso ser, porque nós só lhe damos um pensamento momentâneo e então deixamos tal pensamento de lado. Estando a milhares de quilômetros de nós, não ligamos realmente se essas pessoas estão na miséria absoluta em algum lugar. Nossa vida diária prossegue como de costume, nós usufruímos de nossos pequenos prazeres, temos nossas preocupações, nossos problemas particulares, e isso é tudo. 

Deixando de lado a tremenda miséria e o sofrimento que existe no mundo, dos quais nós sabemos superficialmente com uma parte de nossas mentes, há muito em nossas vidas e nas vidas das outras pessoas em nosso redor, que é da natureza do sofrimento, embora nós não nos apercebamos disso. Há inúmeras ansiedades, irritações, frustrações e os desejos que levam a decepções, os quais nós não chamamos de sofrimento. Mas se considerarmos a vida que levamos como um todo, ela não constitui aquela espécie de felicidade que pode ser chamada de verdadeira felicidade.

Os Budistas Mahayana dizem que a iluminação só vem quando existe uma profunda compaixão, um profundo sentimento pela miséria e sofrimento que existem no mundo. A iluminação não existe quando nós a queremos e dizemos: 'eu vou conseguir atingir um objetivo na vida espiritual'. O motivo para se encontrar a iluminação deve ser uma solidariedade altruísta para com todo aquele que sofre. Há um lindo provérbio que diz que a compaixão é a mãe de todos os Budas. Um Buda vem a existir quando ele vê o quanto as pessoas sofrem e quando ele sente uma grande ânsia de encontrar uma saída desse sofrimento. Então, ser capaz de perceber a futilidade, a miséria, a falta de sentido, e o sofrimento da vida é o primeiro passo. (...)" 

Extraído do livro "Não há Outro Caminho a Seguir", Ed. Teosófica, 2016, p. 85/88.
Imagem: Pinterest.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A MENTE APRENDIZ

"Toda ação pode ser realizada de maneira egoísta ou não. O ego não está na ação, mas na maneira como a abordamos. Minha casa não cria o ego em mim; minha abordagem a ela, sim. Estou criando o ego de momento a momento, e devo perguntar se está claro que o ego é o maior inimigo do homem, um fator de discórdia na vida. A busca religiosa, ou o caminho, significa observar a operação do ego na consciência, assim como suas consequências. Quando vejo o perigo, ele termina. Não tenho que acabar com ele, assim como não tenho que resistir ao desejo de colocar a mão no fogo. Não há conflito quando o perigo é percebido com clareza, mas nós não compreendemos o perigo do egocentrismo. Acreditamos que o egoísmo nos benefici
ará, quando na verdade ele destrói a alegria em nossa vida.

Toda virtude pode se transformar num vício, se o ego se aliar a ela. O amor com ego torna-se possessividade; um inocente anseio torna-se compulsão; a humildade torna-se servilismo. Nosso verdadeiro inimigo é o ego.  Mas, exatamente porque o criamos, temos a possibilidade de 'descriá-lo'. Podemos parar de criar ilusões em nossa mente. Por isso existe a busca religiosa, a filosofia da libertação da mente.

Os Upanishades falam de dois pássaros numa árvore: o primeiro belisca e prova o fruto, representando o ego que experimenta prazer e dor. O segundo apenas observa o que o outro faz. A consciência humana é esses dois pássaros em um. O primeiro está no plano do esforço, da luta, da frustração, do conhecimento. A verdadeira transformação da consciência, a percepção da verdade, está no outro plano: observação, atenção, reflexão, percepção. Permanecer atento, sem jamais bloquear a energia do segundo plano, é a exigência do caminho. A investigação religiosa deve ser livre do ego. E o fim do ego não está no final da estrado - está no início. 'Quando o ego não está, o amor está', disse Krishnamurti. 

Às vezes, quando abordamos as coisas de modo não egoísta, o ego não está presente; não o estamos criando o tempo todo. Ele não pode desaparecer pelo esforço, porque esforço implica realização, e essa é a essência do ego. Se estou praticando yoga ou meditação através de esforço, o ego está preso a isso. Ele pode gostar de seguir adiante no caminho. Portanto, não há caminho para pôr fim ao ego. Somente a percepção acabará com ele, e isso requer uma mente aprendiz. 

A mente aprendiz sabe que não sabe. Se ela pensa que já sabe e que deve convencer os outros de seu ponto de vista, ela não está aprendendo, está ocupada ensinando. Pode não haver algo como ensino ou guru nesse campo. Pode haver apenas aprendizado. A humildade que surge da percepção de que 'eu não sei' é parte essencial da mente aprendiz, que ouve, observa e reflete, porque está ansiosa por aprender. Portanto, o caminho tem origem no terreno do não saber. Não é um caminho rumo a uma meta fixa, porque eu não conheço a meta. Ele leva ao desconhecido. Devo apenas limpar as teias de aranha, eliminar as distorções da mente e ver a verdade. 

A questão não é se existe um caminho ou não. Uma opinião sobre isso apenas nos dividirá. Devemos compreender por nós mesmos quais são as implicações, as nuances, as sutilezas, a verdade. Devemos permanecer com essa questão para aprender com ela, sem formar opiniões. Talvez haja um caminho, se eu o compreendo de maneira correta; contudo, talvez não haja, se eu o defino de maneira superficial, como algo a ser trilhado no tempo, como uma meta a ser atingida.

O problema não é no que eu acredito ou não; isso é superficialidade. O problema não é alguém ser budista, cristão ou hindu, ser superficialmente budista, hindu ou teosofista. Um dos objetivos da Sociedade Teosófica é a fraternidade universal - será isso apenas uma nobre ideia, uma crença, ou a verdade? Estará a divisão entre os seres humanos surgindo da ilusão? Crenças e ideais não são fato. A fraternidade universal não é um ideal a ser atingido, e um fato a ser percebido. Enquanto não o percebermos por nós mesmos, decidir ser fraternos torna-se hipocrisia. É como decidir amar; não é questão de escolha. Você não consegue transformar sua consciência através da volição; portanto, não existe um caminho mecânico que você pode decidir trilhar. A não ser que a mente seja uma mente aprendiz, não  base para o caminho.  

O caminho é muito sutil, e aí reside também a sua beleza - um desafio para o ser humano. O animal não é capaz de atingi-lo, nem o caminho exige isso, mas na consciência humana há enorme potencial para ser egoísta e destrutivo. É por isso que toda a questão do que é o correto viver e do que é moral ou imoral surge apenas para os seres humanos. A busca religiosa, significa descobrir o estado de harmonia com a ordem da natureza. Somos parte dela, que tem uma ordem tremenda. Essa ordem deve ampliar dentro de nossa consciência; devemos aprender a dar fim à desordem na consciência. Então haverá uma ordem que não é criada por mim - a ordem da natureza."

(P. Krishna - Um caminho para a verdade - Revista Sophia, Ano 15, nº 65 - p. 24/25)
Imagem: Pinterest.


terça-feira, 5 de abril de 2022

O FIM DA ILUSÃO

"Haverá um caminho para pôr fim às distorções? Uma verdade distorcida é uma falsidade. Estamos completamente enredados em nosso passado ou será possível nos libertarmos dele, o mínimo que seja? Se não fosse possível, seríamos como computadores programados, entidades mecânicas, sem possibilidade de mudança. Mas obviamente os seres humanos mudam, não apenas externamente, com a idade, mas também internamente, porque algumas ilusões ficaram pelo caminho.

Como termina a ilusão? Eu posso, por exemplo, vir de uma família onde os filhos são castigados fisicamente, e crescer com a ideia de que isso é certo. Há muitas ilusões desse tipo, em vários níveis; nós as consideramos verdadeiras e agimos baseados nisso. Existem superstições; é possível nos livrarmos delas com investigação intelectual. Há as ilusões psicológicas - mágoas, inimizades, lisonjas, preconceitos resultantes da dor. Finalmente, há a ilusão de que somos indivíduos separados, como assinalaram tantos sábios. Suas palavras podem não soar verdadeiras para nós, mas é preciso lembrar quantas ilusões consideramos verdadeiras. Algo que achamos tremendamente importante pode não ser. Quando a mente, com todas as ilusões, interpreta as experiências e os fenômenos que observa, o que então assegura que ela veja a verdade e não um preconceito? Como ocorre o crescimento da sabedoria?

Toda vez que a consciência humana tem um insight, por menor que seja, uma parte de suas ilusões desaparece e há uma verdadeira transformação da consciência. Isso pode não ser iluminação, mas é uma real mudança no modo como a consciência responde a fenômenos externos. Se a pessoa, por exemplo, concluiu por si mesmo que comparar-se a outra é uma doença da mente que leva a todo tipo de complicações, já que dá origem ao ciúme, à inveja, sentimentos de superioridade ou inferioridade, à culpa, rivalidade e competição; se ela vê a verdade disso, não de maneira lógica ou intelectual, mas efetivamente, através de sua própria percepção, a comparação cessa. Então ocorre uma verdadeira transformação. Se a pessoa deixa de se comparar ao vizinho que tem um carro novo, então pode continuar feliz andando de bicicleta. Ela se liberta de uma ilusão e do correspondente desperdício de energia. Todos nós temos essa possibilidade de insight profundo, quando a percepção da verdade age sobre a consciência. 

Para compreender o significado do caminho, deve-se entender como essa aprendizagem ocorre - não apenas a aprendizagem na escola ou através da leitura, que é aumento de conhecimento, mas a aprendizagem que é o discernimento entre o verdadeiro e o falso. Com a percepção da verdade, o falso desaparece sem esforço. Aprendizado, nesse sentido, é a mente religiosa. Se eu não tiver a capacidade de aprender, o caminho oferecerá apenas experiências - de meditação, de yoga, de adoração em um templo, de realizar um ritual. A experiência, por si mesma, não ensina. Se ensinasse, todas as pessoas idosas seriam sábias, mas os idosos podem ser extremamente preconceituosos.

Um dos fatores que bloqueiam o insight ou causam distorção na percepção é o que chamamos de ego. Precisamos entender como ele surge e opera. O ego não está no mundo físico. Também não existe na natureza. As árvores não têm ego: as tempestades sopram, os ciclones chegam, mas não têm motivação para destruir. O ego só é encontrado na consciência humana. Isso significa que criamos com ele o que obtivemos através da evolução, ou seja, a capacidade de pensar, lembrar e imaginar. É preciso descobrir se aprendi a usar essa capacidade corretamente ou se estou bloqueando o meu próprio aprendizado. O 'eu' pode ser o maior bloqueio à percepção da verdade.  

 O ego não é algo distante; todos nós o conhecemos e percebemos. Quando dizemos às crianças que é importante jogar um jogo sem dar tanta importância a ganhar ou perder, estamos pedindo que não joguem de maneira egoísta. O Bhagavad Gita fala sobre agir sem preocupação com recompensa ou resultado. Nossa preocupação deve ser com a própria ação. Se isso é possível num jogo, porque não na vida diária?"

(P. Krishna - Um caminho para a verdade - Revista Sophia, Ano 15, nº 65 - p. 22/23)
Imagem: Pinterest. 


quinta-feira, 31 de março de 2022

UM CAMINHO PARA A VERDADE

"Existe um caminho para a verdade? Esta foi uma pergunta feita por Krishnamurti, em 1929. Ao explorar novamente a questão, sem concordar ou discordar com nenhuma das conclusões precedentes, acredito que nós crescemos em compreensão e sabedoria. Assim, vemos investigar o assunto a partir das causas primárias, sem assumir conhecimento prévio, e começando pela observação.

Primeiramente devemos perguntar o que é verdade. No sentido comumente aceito, é uma descrição acertada de algo que verdadeiramente aconteceu, ou que é um fato. Usamos a palavra verdade com sentido diferente quando ela descreve uma lei da natureza ou um relacionamento de causa e efeito. Por exemplo, a lei de gravidade é verificável; ela se confirma como uma relação de causa e efeito em todo tipo de fenômeno à nossa volta. Os estudiosos afirmam a verdade ou falsidade de algo aplicando-lhe lógica e raciocínio; quando deduzem algo absurdo, dizem que a premissa não é verdadeira. Portanto, existe essa maneira de analisar uma afirmação e de chegar a uma conclusão sobre sua veracidade. 

A verdade tem um significado totalmente diferente da busca religiosa. Ela está no nível da percepção, não no da ideação. Por exemplo, ao estudar sobre o que Buda disse, e sobre o que vários indivíduos disseram que Buda disse, a pessoa se torna erudita ou professora de filosofia budista; mas o professor não é Buda. A diferença não está nas palestras dadas. O professor pode até explicar certas circunstâncias melhor do que Buda, mas sua consciência não é a consciência de buda. A não ser que haja uma transformação da consciência, não haverá sabedoria, apenas o conhecimento; o conhecimento pode transformar ideias, mas não transformar a consciência. 

No campo científico é diferente; pode-se, por exemplo, utilizar uma fórmula matemática sem ter uma percepção profunda de espaço, tempo, matéria e energia. O cientista que descobriu a lei pode ter tido um grande insight, mas os outros não precisam tê-lo para usar a fórmula; ela funciona. Na busca religiosa, porém, ideias e conhecimentos são apenas cinzas, porque a pessoa vive com temores, conflitos, desejos, problemas com o ego. Ela não é sábia. A busca religiosa é uma busca por sabedoria, e isso é diferente de adquirir conhecimento. Portanto, devemos perguntar: existe um caminho para a sabedoria, para a percepção profunda da  verdade por nós mesmos, a que Krishnamurti referiu-se como insight

Há um caminho analítico para o conhecimento e outros caminhos que no campo do conhecimento e da análise; nossa vida diária está no campo do pensamento, planejamento, imaginação e esforço. Mas existe um outro plano de existência, o plano da atenção, sabedoria, visão e percepção, A verdade está nesse plano - no nível da percepção, não da ideação. Há um estranho relacionamento entre esse plano de percepção e insight e o campo de nossas atividades, esforços e realizações diárias. 

Sendo assim, como ocorre a percepção, se não há caminho até ela? Na Escola Krishnamurti de Brockwood Park, na Inglaterra, conta-se uma piada. Um estudante pergunta a outro: 'Se a verdade é uma terra sem caminho, como se chega lá?' E o outro menino responde: 'Perdendo-se!' Há verdade nessa afirmação, pois o modo como a mente chega a uma percepção totalmente nova é um mistério. Sem uma percepção assim não há real transformação da consciência, nem mudança real e fundamental no nível do pensamento, da realização e do ego no dia a dia. Compreensão e transformação fundamentais têm origem em outro plano.

Se eu tenho uma percepção profunda e isso traz a realização de uma verdade - não o mero conhecimento dessa verdade -, ela se torna real para mim. Esse salto do conhecimento para a realização da verdade é o que chamamos de insight. O que bloqueia o insight? A verdade existe o tempo todo. Por que não sou capaz de percebê-la? A mente parece ver todos os fenômenos através de um véu, uma tela de ilusões, conclusões, afirmações, opiniões, etc., que chamamos de condicionamento. Cada um de nós está condicionado pela família, cultura e tudo o que nos faz ser o que somos. O condicionamento é mantido na memória, e a pessoa não consegue apagá-lo voluntariamente."

(P. Krishna - Um caminho para a verdade - Revista Sophia, Ano 15, nº 65 - p. 21/22)
Imagem: Pinterest. 


terça-feira, 1 de março de 2022

O EU¹ COMO O CONHECEDOR

"Ao estudarmos a natureza do homem, separamos os veículo que ele utiliza: o Eu vivo do envoltório com o qual está revestido. O Eu é um, por mais variadas que sejam as formas da sua manifestação, quando trabalha através de, por meio dos diferentes tipos de matéria. É certamente verdade que existe apenas Um Eu no sentido mais completo das palavras: assim como raios irradiam do sol os vários 'Eus', que são os verdadeiros Homens, que são apenas raios do Eu Supremo, e cada Eu pode sussurrar: 'Eu sou Ele'. Mas para o nosso presente propósito, tomando um único raio, podemos afirmar também quanto à sua separação, à sua própria unidade inerente, ainda que esteja oculta pelas suas formas. A consciência é uma unidade, e as divisões que fazemos nela ou são para fins de estudo, ou são ilusões, devido à limitação do nosso poder perceptivo pelos órgãos através dos quais ela trabalha nos mundos inferiores. O fato das manifestações do Eu procederem diferenciadamente a partir dos seus três aspectos de conhecer, querer e energizar - dos quais surgem vários pensamentos, desejos e ações - não nos deve cegar quanto ao outro fato de que não há divisão de substância; o Eu todo conhece, o Eu todo quer, o Eu todo age. Nem as funções estão totalmente separadas; pois quando ele sabe, também age e quer; quando age, também sabe e quer; quando quer, também age e sabe. Uma função é predominante, e por vezes a tal ponto que veda totalmente as outras; mas mesmo na concentração mais intensa do conhecer - a mais separada das três - há sempre uma energização latente e uma vontade latente, que é tão discernível quanto presente através de uma análise cuidadosa. 

Nós temos chamado a estes três 'os três aspectos do Eu'; uma explicação um pouco mais profunda nos ajuda a compreender. Quando o Eu está tranquilo, então é manifestado o aspecto do Conhecimento, capaz de assumir a semelhança de qualquer objeto apresentado. Quando o Eu está concentrado, com a intenção de mudar de estado, aparece então o aspecto da Vontade. Quando o Eu, em presença de qualquer objeto, põe energia para contatar com esse objeto, então revela o aspecto da Ação. Ver-se-á assim que estes três não são divisões separadas do Eu, não são três coisas unidas em uma ou compostas, mas que existe um Todo indivisível, que se manifesta de três maneiras. 

Não é fácil clarificar a concepção fundamental do Eu mais além do que através da sua mera designação. O Eu é aquela consciência, sentimento, Um sempre existente, que em cada um de nós se conhece como existente. Nenhum homem pode jamais pensar em si próprio como não existente, ou formular-se a si próprio como não existente, ou formular-se a si próprio em consciência como 'Eu não sou'. Como Bhagavam Das expressou: 'O Eu é a primeira base indispensável da vida. ...  Nas palavras de Vachaspati-Mishra, no seu Comentário² (o Bhamati) sobre a Shariraka-Bhashya, de Shankaracharya: 'Ninguém duvida 'Sou Eu?' ou 'Não sou Eu?'. 'A Autoafirmação "Eu sou' 'vem antes de tudo, está acima e além de qualquer argumento. Nenhuma prova pode fazer isso; mais ainda, nenhuma contraprova pode enfraquecer isso. Tanto a prova como a contraprova se encontraram no 'Eu sou', o Sentimento de mera Existência não analisável, do qual nada pode ser afirmado, exceto o aumento e a diminuição. 'Eu sou mais' é a expressão do Prazer; 'Eu sou menos' é a expressão da Dor. 

Quando observamos este 'Eu sou', descobrimos que ele se expressa de três maneiras diferentes: (a) a reflexão interna de um Não Eu, CONHECIMENTO, a raiz dos pensamentos; (b) a concentração interna, VONTADE, a raiz dos desejos; (c) o ir para o externo, ENERGIA, a raiz das ações; 'Eu Sei' ou 'Eu penso', 'Eu quero', ou 'Eu desejo', 'Eu energizo' ou 'Eu ajo'. Estas são as três afirmações do Eu indivisível, do 'Eu sou'. Todas as manifestações podem ser classificadas sob uma ou outra destas três titulações; o Eu manifesta-se em nosso mundo apenas nestas três formas; como todas as cores surgem das três primárias, assim as inúmeras manifestações do Eu surgem todas da Vontade, da Energia, do Conhecimento.

O Eu como Aquele que Quer, o Eu como Energizador, o Eu como Conhecedor - ele é o Único na Eternidade e também a raiz da individualidade no Tempo e no Espaço. É o Eu no aspecto do Pensamento, o Eu como Conhecedor, que temos de estudar." 

¹ No original em inglês: Self, que foi traduzido neste livro por Eu (Eu superior). (Nota Ed. Bras.).
² The Science of the Emotions (A Ciência das Emoções), p. 20 da edição em inglês.

(Annie Besant - O Poder do Pensamento - Ed. Teosófica, Brasília, 2021 - p. 14/17)
Imagem: Pinterest, Cachoeira de Seljalandsfoss, na Islândia.


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A ESCALADA DA EVOLUÇÃO

"A escalada de uma montanha pode ser usada como uma metáfora para analisar a jornada da nossa alma. Existe a possibilidade de verticalidade em nossas vidas, com muitos níveis de realidade que são apreensíveis para nós apenas nos estados mais elevados de consciência. Da mesma forma, quando subimos uma montanha, a paisagem que se revela à nossa visão muda ao atingirmos os níveis mais elevados. O importante é empreender a verdadeira subida, em vez de se engajar em discussões a respeito das paisagens, conforme foram descritas por aqueles que empreenderam a escalada antes de nós.  

O pico de qualquer montanha que valha a pena ser escalada é invisível. Isso se deve às limitações do nosso aparato de percepção. Qualquer descrição do pico só pode ser compreendida no nível mental onde estamos agora. Enquanto esse nível de mente estiver ocupado com conhecimento, que inclui o desejo implícito ou explícito de controlar, a argumentação inteligente pode surgir, mas não a submissão à verdade. É necessário não apenas se livrar do conhecimento, que é sempre do passado, mas também do conhecedor, que separa a si mesmo daquilo que deve ser conhecido. Além disso, é também necessário livrar-se da necessidade de conhecer, que traz em si uma tendência inevitável para o controle e manipulação.

Porém, a base da montanha que vale a pena ser escalada é visível. É ali onde podemos encontrar muita orientação dos sábios e das escrituras, de modo que possamos fazer esforços na direção correta.

No entanto, a jornada é o empreendimento mais significativo, não o aprendizado das escrituras, nem a tentativa de vencer as discussões a respeito de como é o topo. No Bhagavad Gita, Krishna oferece um bom lembrete: o yogue busca refúgio em bhuddi (plena atenção) e adquire cada vez mais estabilidade de atenção, que não é perturbada pelo que teólogos, filósofos e cientistas disseram ou irão dizer. 

O significado da jornada não é ir a algum lugar, mas passar por uma transformação interior do corpo, mente e coração, de modo que nossas percepções se tornem cada vez mais puras e que vejamos o modo como é, não o modo como imaginamos que deveria ser. Mais do que qualquer coisa, o empreendimento dessa jornada de transformação requer de nossa parte o entendimento de que precisamos de uma transformação radical do nosso ser. Até que vejamos o que realmente somos, não poderemos apreciar a necessidade de transformação. Quando começamos a ver a nós mesmos com clareza e imparcialidade, passamos a entender a necessidade da transformação, porque vemos que nossa percepção da realidade é muitíssimo colorida pelo medo, pela autoimportância e pelas forças de recompensa e punição. Então sentimos que precisamos empreender a jornada e que ela vai requerer uma considerável quantidade de disciplina, sacrifício e trabalho duro. 

Somos naturalmente atraídos para o pico da montanha. É uma necessidade de nossa alma. Assim como a única propriedade de uma bússola é apontar para o polo norte magnético, a alma possui apenas uma propriedade: apontar para o real. Mas, do mesmo modo como a bússola pode ser confundida por fortes tempestades magnéticas em sua vizinhança, nossa alma pode ser confundida por fortes tempestades emocionais, a maior delas de medo e ambição. Assim, periodicamente voltamos nosso olhar em direção ao topo, pois é aquilo que nos atrai, aquilo é o nosso Krishna (da raiz karshati, atrair), mas precisamos nos preocupar com o próximo passo. Existem muitas armadilhas, fendas e obstáculos, e podemos cair, nos ferir ou ficar encurralados.

Não há garantias. Sábios e escrituras podem ser úteis, mas a jornada é sempre um voo do solitário para o Solitário. O melhor auxílio é o de companheiros buscadores que sejam de confiança, e daqueles que amam e apoiam não o que somos, mas aquilo que somos convocados a ser."

(Ravi Ravindra - A Escalada da Evolução - Revista Sophia, Ano 14, nº 63 - p. 5/6)


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A ENTREGA A DEUS (1ª PARTE)

"A pessoa madura é consciente de que deve assumir a responsabilidade por construir a sua vida, sem sonhar e esperar que seus problemas sejam resolvidos por uma fonte externa. No entanto, um dos pilares da vida espiritual é a entrega a Deus. Será que estamos diante de mais um paradoxo da vida oculta? Esse não é o caso. As duas proposições são verdadeiras concomitantemente, pois Deus não é uma fonte externa, mas sim o âmago de nossa natureza interior. Na verdade somos uma expressão de Cristo, somos o Filho de Deus, mas a maior parte da humanidade ainda não tem consciência desta verdade profunda e eterna. 

Nosso progresso na Senda espiritual torna-se acelerado quando fazemos uma sincera entrega a Deus ou, como alguns estudiosos preferem dizer, uma entrega à nossa natureza divina. Com isso transferimos o centro de decisões de nossa vida, do ego, com suas limitações de todos os tipos, para nossa natureza superior, com seu amor, sabedoria e total comprometimento com nossa felicidade última. Com isso estaremos desativando o atual agente controlador de nossa vida, que não busca o nosso verdadeiro interesse, e entregando o controle para nosso Pai/Mãe Celestial, cujo propósito é a nossa libertação do sofrimento e Iluminação, ou seja, o nosso 'passaporte' para que, como filhos pródigos que somos, possamos retornar par a Casa do Pai.

Quando realmente nos entregamos a Deus sentimos que não estamos mais sozinhos. Passamos a ter acesso a toda a sabedoria e poder que SERÃO NECESSÁRIOS para superarmos as dificuldades e os desafios que todo aspirante enfrenta no caminho que leva à Verdade que nos liberta. Vista sob outro ângulo, a entrega a Deus acelera nosso progresso na Senda, justamente porque o objetivo da vida espiritual é alcançar a consciência da unidade com Deus. 

Sabemos, por experiência própria, que tudo conspira contra as mudanças necessárias na vida espiritual. As tentações vivem nos fazendo tropeçar. Os apegos dificultam nosso progresso. O ego usa de mil artimanhas para garantir a manutenção do status-quo, sendo uma das mais importantes, no mundo cristão, a crença errônea de que somos 'vis pecadores'. Essas dificuldades afetam buscadores novatos e avançados indistintamente, como indica a famosa passagem do Apóstolo Paulo:

'Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance; não, porém, o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que estou agindo, e sim o pecado (o ego) que habita em mim'.

Esse impasse também foi aludido por Jesus no Sermão da Montanha quando ele declarou: 'Ninguém pode servir a dois Senhores'. Temos que decidir se queremos tomar o caminho que nos levará às alturas espirituais ou permanecer nos vales sombrios deste mundo de ilusões, sofrendo sob o jugo do ego. Neste caso permaneceremos sujeitos às inesperadas virados do destino com suas amargas surpresas e desilusões. Nossas experiências são equiparadas a sonhos. Esses sonhos são de nossa criação. Como eles são a nossa percepção errônea da realidade, podemos mudá-los a qualquer momento. Temos o poder de criar o inferno e o poder de criar o céu. Por que não usar a nossa mente, nossa imaginação, nossas emoções e nossa determinação para criar o céu? Com isso passamos a perceber a paz, o amor e a alegria à nossa volta em tudo e em todos.(...)" ...continua.

(Raul Branco - A Essência da Vida Espiritual - Ed. Teosófica, Brasília, 2018 - p. 99/101)


terça-feira, 29 de junho de 2021

DEIXA DE SER BONECO DE ENGONÇOS!

"O mundo em derredor é um mundo de efeitos visíveis - cuja causa é invisível. Por detrás dessa vasta tela multicor de fenômenos transitórios atua a misteriosa causa incolor, o eterno e imutável Númeno - Deus.

O homem profano é constantemente impelido pelo mundo externo; não é ele que decide - é o mundo fenomenal que determina o que esse homem deve fazer ou deixar de fazer.

O homem profano é antes um objeto atuado do que um sujeito atuante.

É escravo dos seus sentimentos e pensamentos, que lhe tolhem a liberdade de ser ele mesmo, seu verdadeiro Eu divino.

Está à mercê das paixões do egoísmo, da cobiça, da sensualidade, do medo, do ódio, da aversão - vítima passiva de todos os impactos vindos da periferia da sua personalidade.

É um 'caniço agitado pelo vento' - e não um baluarte firmado em rochedos eternos.

Qual boneco de engonços manobrado por cordéis invisíveis, assim move o profano mãos e pés, mente e coração, ao sabor de agentes alheios.

O profano não se guia - é guiado.

Mas, quando o homem ultrapassa a fronteira do mundo fenomenal das aparências e entra na zona da grande realidade; quando, de vítima dos efeitos heterônomos, passa a ser senhor da causa autônoma, das creaturas ao Creador, das aparências à essência, do temporal ao eterno - então deixa de ser escravo das ilusões e se torna senhor da verdade.

'Conhecereis a verdade - e a verdade vos libertará'...

Abandona o movediço areal do mundo periférico e alicerça sua casa sobre o rochedo central da realidade divina.

Proclama a sua verdadeira liberdade - 'a gloriosa liberdade dos filhos de Deus'.

E das excelsas e sólidas alturas do seu Himalaia espiritual contempla esse homem, com jubilosa serenidade, todas as rampas e baixadas da vida humana e do mundo em derredor.

Não com o sobranceiro desdém do orgulhoso - mas com a humilde benevolência do sábio.

Que tudo compreende desconhece desprezo, orgulho e ódio - abrange todas as coisas com a potente suavidade e a suave potência de um amor universal.

No coração desse homem têm lar e querência segura todos os seres do universo de Deus.

Porque o iniciado sabe por experiência íntima que todos os filhos de Deus são seus irmãos e suas irmãs, membros da grande família do Pai celeste.

Verdade é liberdade.

Liberdade é compreensão.

Deixa, pois, meu amigo, de ser fantoche de compulsão externa - e torna-te senhor do impulso interno.

Senhor da tua vida.

Senhor do teu destino..."

(Huberto Rohden - Imperativos da Vida - Alvorada Editora e Livraria Ltda., São Paulo, 1983 - p. 143/145)



 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

A BUSCA DA VERDADE - excertos 8 e 9

"8.  Sadaprarudita, que buscava seriamente o verdadeiro caminho da Iluminação com o risco da própria vida, havia abandonado toda a tentativa ao lucro ou honra. Certo dia, uma voz vinda do céu lhe disse: 'Sadaprarudita! Vá direto ao leste. Não se preocupe com o calor ou com o frio, não dê atenção ao louvor ou desprezo mundanos, não se preocupe com as discriminações entre o bem e o mal, apenas se preocupe em ir para o leste. Neste longínquo leste, encontrará um verdadeiro mestre e alcançará a Iluminação.

Sadaprarudita, contente por ter tido esta precisa instrução, imediatamente, encetou viagem rumo ao leste. Quanto a noite chegava, dormia onde se encontrasse, em um ermo campo ou nas agrestes montanhas. Sendo forasteiro em terras estranhas, sofria as mais diversas humilhações; vendeu-se como escravo, desgastou, por causa da fome, a sua própria carne, mas, finalmente, encontrou o verdadeiro mestre e lhe pediu instruções.

'Boas coisas custam muito caro', eis um ditado que se assenta bem no caso de Sadaprarudita, pois ele teve muitas dificuldades em sua viagem à procura do caminho da Iluminação. Sem dinheiro para comprar flores e incenso para oferecer ao mestre, tentou vender seus serviços, mas não encontrou ninguém que o empregasse. O infortúnio parecia rondá-lo em toda a parte que fosse. O caminho do Iluminação é muito árduo e pode custar a vida a um homem.

Finalmente, Sadaprarudita conseguiu chegar à presença do procurado mestre, mas aí teve nova dificuldade. Não possuía papel nem pincel ou tinta para escrever. Então, feria o punho e com o próprio sangue tomava notas do ensinamento dado por este mestre, Desta maneira, conseguiu a preciosa Verdade.

9.  Havia, certa feita, um menino de nome Sudhana, que também desejou a iluminação e procurou seriamente o seu caminho. De um pescador aprendeu as tradições do mar. De um médico aprendeu a ter compaixão dos doentes em seus sofrimentos. De um homem rico aprendeu que a poupança é o segredo de toda a fortuna; e com isso concluiu que é necessário conservar tudo aquilo que se obtém no caminho da Iluminação, por mais insignificante que seja.

De um monge que medita aprendeu que a mente pura e tranquila tem o miraculoso poder de purificar e tranquilizar outras mentes. Certa vez, encontrou uma mulher de extraordinária personalidade e ficou impressionado com sua benevolência, dela aprendeu que a caridade é o fruto da sabedoria. Certa ocasião, encontrou um velho viandante que lhe contou que, para chegar a um certo lugar, teve de escalar uma montanha de espadas e atravessar um vale de fogo. Assim, com suas expêriencias, Sudhana aprendeu que sempre há um verdadeiro ensinamento a ser colhido e assimilado em tudo aquilo que se ver ou ouvir.

Ele aprendeu paciência de uma pobre mulher, fisicamente imperfeita; aprendeu a pura felicidade, observando as crianças brincarem na rua; e de um gentil e humilde homem, que nunca desejou aquilo que os outros desejavam, aprendeu o segredo de viver em paz com todo o mundo.

Ele aprendeu uma lição de harmonia, observando a composição dos elementos do incenso, e uma lição de gratidão estudando arranjo de flores. Certo dia, passando por uma floresta, parou à sombra de uma árvore, para repousar. Enquanto descansava, viu, perto de uma velha árvore caída, uma minúscula plantinha; deste fato aprendeu uma lição da incerteza da vida.

A luz solar do dia e as cintilantes estrelas da noite constantemente refrescavam sua mente. Assim, Sudhana aproveitou bem as experiências de sua longa jornada.

Aqueles que buscam a Iluminação devem fazer de suas mentes uns castelos e decorá-los. Devem abrir, de par em par, os portões do castelo de suas mentes, para, respeitosa e humildemente, convidar Buda a entrar em sua recôndita fortaleza, aí lhe oferecendo o fragrante incenso da fé e as flores da gratidão e alegria."

(A Doutrina de Buda, Bukkyo Dendo Kyobai, Terceira edição revista, 1982, p. 317/323)


 

terça-feira, 1 de junho de 2021

A BUSCA DA VERDADE - excerto 7

"7.  Havia, certa vez, um homem que procurava, no Himalaia, o Verdadeiro Caminho. Não se interessava pelos tesouros da terra nem pelas delícias do céu, apenas buscava o ensinamento que pudesse afastar todas as delusões mentais.

Os deuses, impressionados com sua seriedade e sinceridade, decidiram pôr sua mente à prova. Assim, um dos deuses se disfarçou em demônio e apareceu no Himalaia, cantando: 'Tudo muda, tudo aparece e desaparece'.

O homem ouviu com satisfação esta canção. Sentia-se tão satisfeito, como se tivesse encontrado uma fonte de água fresca para mitigar-lhe a sede, ou como um escravo inesperadamente liberto. Dizia consigo mesmo: 'Finalmente, encontrei o verdadeiro ensinamento que, por muito tempo, procurava.' Seguindo a voz, chegou junto a um horrendo demônio. Com a mente apreensiva, aproximou-se do demônio e lhe disse: 'Foi você que cantou a sagrada canção que há pouco ouvi? Se foi você, por favor, cante-a mais um pouco.' O demônio lhe respondeu: 'Sim, fui eu, mas não posso mais cantá-la até que tenha algo para comer, estou faminto.'

O homem lhe suplicou sinceramente que a cantasse mais, dizendo: 'Ela tem um significado sagrado para mim e eu o procurei durante muito tempo. Apenas ouvi uma pequena parte, por favor, deixe-me ouvir mais.' O demônio disse novamente: 'Estou muito faminto, se pudesse provar carne fresca e sangue de um homem, eu terminaria a canção.' O homem, em sua ânsia de ouvir o ensinamento, prometeu-lhe dar o seu corpo após ter ouvido o ensinamento. O demônio, então, cantou a canção completa.

Tudo muda,
Tudo aparece e desaparece,
Somente haverá perfeita tranquilidade,
Quando se transcender a vida e a morte.

Ouvindo isso, o homem, depois de escrever o poema nas rochas e árvores ao seu redor, subiu calmamente em uma árvore e se atirou aos pés do demônio, mas o demônio havia desaparecido e, em seu lugar, um radiante deus amparou incólume o corpo do homem."

(A Doutrina de Buda, Bukkyo Dendo Kyobai, Terceira edição revista, 1982, p. 303/317)  


quinta-feira, 27 de maio de 2021

A BUSCA DA VERDADE - exertos 5 e 6

"5.  Aqueles que, verdadeiramente, buscam o caminho da Iluminação devem controlar a mente e prosseguir com firme determinação. Mesmo se forem abusados por uns e desprezados por outros, devem seguir em frente, com a mente imperturbável. Devem ser pacientes e não ficar irritados se forem atacados com punhos, pedras ou espadas.

Mesmo que seus inimigos lhes cortem as cabeças, suas mentes devem permanecer inabaláveis. Se deixarem que suas mentes se anuviem com as coisas que sofrerem, eles não estarão seguindo o ensinamento de Buda. Devem determinar-se, não importando o que lhes possa acontecer, a permanecer firmes, imutáveis, irradiando sempre pensamentos de compaixão e boa vontade. Diante do abuso e diante do infortúnio, deve-se permanecer inabalável, com a mente tranquila, irradiando o ensinamento de Buda.

Para a colimação da Iluminação, tentarei realizar o impossível, suportarei o insuportável. Darei tudo que tenho para isso. Se, para alcançar a Iluminação, tiver que restringir meu alimento a um único grão de arroz por dia, comerei apenas isso. Se o caminho da Iluminação me conduzir através do fogo, não vacilarei, irei em frente.

Entretanto, não se deve fazer estas coisas, visando outros propósitos. Deve-se fazê-las apenas porque são sensatas e corretas. Deve-se fazê-las sem a mente da autocompaixão, como uma mãe que tudo faz a um filho doente, não medindo esforços nem visando o próprio conforto.

6.  Havia, certa vez, um rei que amava seu povo e país, governando-os com sabedoria e bondade, mantendo, desta forma, o país próspero e tranquilo. Dedicava-se sempre à procura de maior sabedoria e esclarecimento, oferecendo recompensas a todo aquele que lhe pudesse trazer bons ensinamentos.

Sua devoção e sabedoria, um dia, chegaram ao conhecimento dos deuses, que resolveram pô-lo à prova. Um deus, disfarçando-se em demônio, apareceu diante dos portões do palácio real e solicitou fosse levado à presença do rei, pois tinha um sagrado ensinamento a lhe dar.

O rei que estava contente em ouvir esta mensagem, recebeu cortesmente o demônio e lhe pediu instruções. O demônio, assumindo uma forma aterrorizadora, pediu-lhe alimento, dizendo que não podia ensiná-lo antes de ter o alimento preferido. Seletos alimentos lhe foram oferecidos, mas o demônio insistia em ter uma fresca e sanguinolenta carne humana. O príncipe herdeiro e a rainha lhe deram seus corpos, mas, ainda assim, não se tinha saciado e pediu o corpo do rei.

O rei anuiu em lhe dar seu corpo, mas quis primeiro ouvir o ensinamento antes de lho oferecer. O deus então pronunciou este ensinamento: 'A lamentação e o temor surgem da luxúria. Aqueles que se afastam da concupiscência não têm lamentação nem temor.' De repente, o deus reassumiu a sua verdadeira forma e o príncipe e a rainha reapareceram com seus corpos originais."

(A Doutrina de Buda, Bukkyo Dendo Kyobai, Terceira edição revista, 1982, p. 309/313)


terça-feira, 25 de maio de 2021

A BUSCA DA VERDADE - excertos 3 e 4

"3.  O mundo não tem substância própria. É apenas a vasta concordância das causas e condições que tiveram sua origem, única e exclusivamente, nas atividades da mente, estimulada pela ignorância, falsas imaginações, desejos e estultícia. Não é algo externo sobre o qual a mente tenha falsos conceitos: não tem nenhuma substância. Apareceu com os processos da própria mente, manifestando suas próprias delusões. É baseado e construído pelos desejos da mente, sem seus sofrimentos e lutas incidentais à dor causada por suas próprias cobiça, ira e estultícia. Os homens que buscam o caminho da Iluminação devem estar prontos para combater esta mente, para poderem atingir seu objetivo.

4.  Ó mente! Por que pairas incansavelmente assim sobre as cambiantes circunstâncias da vida? Por que me deixas tão confuso e inquieto? Por que me incitas a coligir tantas coisas? És como o arado que se quebra em pedaços antes de começar a arar; és como o leme que se desmantela, no momento em que te aventuravas neste mar da vida e da morte. Para que servem os muitos renascimentos se não fazemos bom uso desta vida?

Ó mente minha! Uma vez me levaste a nascer como rei, e outra, me levaste a nascer como um pária e a mendigar meu alimento. Às vezes me faz nascer em divinas mansões dos deuses e a morar na luxúria e êxtase, depois me atiras nas chamas do inferno. 

Ó minha tola, tola mente! Assim me conduziste por longos e diversos caminhos e sempre te fui obediente e dócil. Mas agora que ouvi os ensinamentos de Buda, não mais me perturbarás ou me causarás sofrimentos. Busquemos juntos a Iluminação, humilde e pacientemente.

Ó mente minha! Se pudesses aprender que tudo é não substancial e transitório; se pudesses aprender a não te apegares às coisas, por elas não ansiares, a não dares vazão à cobiça, ira e tolice, então, poderemos caminhar em paz. Se rompermos os grilhões dos desejos com a espada da sabedoria, se não nos abalarmos com as mutáveis circunstâncias da vida, com a vantagem ou desvantagem, com o bem ou mal, com a perda ou lucro, com o louvor ou o abuso, então, poderemos viver em paz.

Ó mente querida! Foste tu que primeiro despertaste em nós a fé; foste tu que sugeriste a nossa procura da Iluminação. Por que, facilmente, dás lugar à cobiça, ao amor pelo conforto e ao prazer novamente?

Ó minha mente! Por que saltitas para cá e para lá, sem um definido propósito? Cruzemos este bravio mar da delusão. Até aqui agi como desejaste, mas agora deves agir como eu quiser e, juntos, seguiremos o ensinamento de Buda.

Ó mente querida! Estas montanhas, estes rios e mares são inconstantes e fontes do sofrimento. Onde, neste mundo de delusão, poderemos encontrar paz? Sigamos o ensinamento de Buda e atinjamos a outra praia da Iluminação."

(A Doutrina de Buda, Bukkyo Dendo Kyobai, Terceira edição revista, 1982, p. 305/309)


quinta-feira, 20 de maio de 2021

A BUSCA DA VERDADE - excerto 2

"2.  Suponhamos um homem que vai à floresta buscar alguma medula, que cresce no centro das árvores, e volta com um fardo de galhos e folhas, pensando que conseguira aquilo que fora buscar. Não seria ele tolo, se está satisfeito com a casca, endoderma ou madeira, ao invés da medula que fora procurar? Mas é o que muitos homens estão fazendo.

Uma pessoa procura um caminho que a afasta do nascimento, da velhice, da doença e da morte, ou da lamentação, da tristeza, do sofrimento e da dor; entretanto, se, seguindo um pouco esse caminho, nota algum progresso, torna-se orgulhosa, vaidosa e arrogante. É como o homem que procurava medula e saiu satisfeito com uma braçada de galhos e folhas.  

Outro homem que se satisfaz com o progresso alcançado com pouco esforço, negligencia seu empenho e se torna vaidoso e orgulhoso; está carregando apenas um fardo de galhos ao invés da medula que estava procurando.

Outro ainda, achando que sua mente se tornou mais tranquila e que seus pensamentos se tornaram mais claros, também relaxa o seu esforço e se torna orgulhoso e vaidoso; tem um fardo de cascas ao invés da medula que procurava. 

Outro homem se torna orgulhoso e vaidoso porque notou que obteve um pouco de compreensão intuitiva; ele tem uma carga de fibra lenhosa ao invés da medula. Todos estes homens que se satisfazem com seu insuficiente esforço e se tornam orgulhosos e altivos, negligenciam o seu empenho e facilmente caem na indolência. Todos eles, inevitavelmente, terão que arrostar novamente o sofrimento.

Aqueles que buscam o verdadeiro caminho da Iluminação não devem esperar uma tarefa cômoda e fácil ou um prazer proporcionado pelo respeito, honra e devoção. E mais, não devem almejar, com pouco esforço, ao supérfluo progresso em tranquilidade, conhecimento ou introspecção. 

Antes de tudo, deve-se ter, de modo claro, na mente, a básica e essencial natureza deste mundo de vida e de morte."

(A Doutrina de Buda, Bukkyo Dendo Kyobai, Terceira edição revista, 1982, p. 301/303


terça-feira, 18 de maio de 2021

A BUSCA DA VERDADE - excerto 1.

"1.  Na busca da verdade, há questões de somenos importância, que podem ser relegadas a um segundo plano. Questões tais que: De que material se compõe o universo? O universo é eterno? Existem limites para o universo? De que maneira se agrega a sociedade humana? Qual a organização ideal da sociedade humana? Se um homem postergar sua busca e prática da Iluminação até que tais questões sejam solucionadas, ele morrerá antes de encontrar o Caminho. 

Suponhamos um homem trespassado por uma flecha envenenada e que seus parentes e amigos tenham resolvido chamar um cirurgião para retirar a seta e pensar a ferida.

Mas o ferido objetou, dizendo: 'Esperem um pouco. Antes que retirem a flecha, quero saber quem a atirou. Foi homem ou mulher? Foi algum nobre ou camponês? De que era feito o arco? O arco que atirou a flecha era grande ou pequeno? Era ele feito de madeira ou bambu? De que era feita a corda do arco? Era ela feito de fibra ou tripa? Antes que extraiam a seta, quero saber tudo a respeito dessas coisas.' Assim, que lhe poderá acontecer?

Antes que todas estas informações possam ser obtidas, seguramente, o veneno terá tempo de circular em todo o sistema e o homem poderá morrer. A primeira providência a ser tomada é retirar a flecha, para que seu veneno não se espalhe.

Quando o fogo da paixão está assolando e ameaçando o mundo, questões como qual a composição do universo ou qual a organização ideal da comunidade humana não têm nenhuma importância.

A resposta à indagação se o universo tem limite ou se é eterno pode ser relegada, até que um meio de extinguir os fogos do nascimento, velhice, doença e morte seja encontrado. Diante da lamentação, da tristeza, do sofrimento e da dor, deve-se primeiro procurar um meio para solucionar estes problemas e dedidar-se à prática desse meio.

O ensinamento de Buda esclarece aquilo que é importante saber e aquilo que não o é. Isto é, o Dharma de Buda orienta os homens a aprender aquilo que deveriam aprender, a remover aquilo que deveriam remover, e dedicar-se em esclarecer aquilo que deve ser esclarecido.

Portanto, os homens deveriam primeiro discernir que questão é de primordial importância, que problema deve ser solucionado primeiro, que questão lhes é mais urgente. Para fazer tudo isso, devem primeiro treinar suas mentes, isto é, devem procurar o controle mental."

(A Doutrina de Buda, Bukkyo Dendo Kyobai, Terceira edição revista, 1982, p. 297/301)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

JAMAIS ESQUEÇA SUA VERDADEIRA NATUREZA!

"Lembre-se de que, como filho de Deus, você é dotado de força muito maior do que jamais precisará, para vencer todas as provas que Deus possa mandar. 

Muitas vezes, ficamos sofrendo sem fazer um esforço para mudar. É por isso que não encontramos paz e contentamento duradouros. Se perseverássemos, certamente seríamos capazes de superar todas as dificuldades. Devemos nos esforçar, para passar da infelicidade à felicidade, do desespero à coragem.

Primeiro, é necessário sentir a importância de mudar nossa condição. Essa atitude estimula nossa vontade de agir. Tomemos a decisão de sempre fazer o esforço para melhorar o Autoconhecimento e, desse modo, melhorar continuamente nossa existência.

Os cientistas espirituais da Índia exploraram o reino da alma. Para benefício da humanidade nos deram certas leis universais de meditação por meio das quais os buscadores sinceros - podem, cientificamente, controlar a mente e alcançar a Autorrealização.

Ao desenvolver a natureza divina, você ficará completamente desapegado do corpo, não mais se sentirá identificado com o mesmo. Cuidará dele como se cuidasse de uma criancinha. À medida que perceber seu verdadeiro Ser, pela meditação, você se libertará de dores físicas e mentais. Jogará fora as limitações de uma vida inteira. Essa é a melhor maneira de viver seus dias na terra."

(Paramahansa Yogananda - A Eterna Busca do Homem - Self-Realization Fellowship - p. 152)


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A CONVERSAÇÃO

"É de todo conveniente lembrar que a conversação deve primar pela veracidade. A exatidão na conversa é qualidade que raramente se mostra nos dias atuais, e lamentavelmente é comum o exagero descuidado. A tal ponto muita gente incorre nessa falta que as palavras chegam a perder toda a significação; é comum dizer-se 'terrivelmente' quando se quer dizer 'muito', ou descrever-se alguma coisa como 'gozado' quando se está tentando exprimir a ideia de que agrada e diverte. 

O ocultista não se deve levar pelo costume nesta matéria, sendo antes meticulosamente exato em tudo o que diz. Há pessoas que consideram a coisa mais natural contar uma falsidade por meio do que chamam uma 'piada', a fim de enganar alguém e depois rir de sua credulidade – uma credulidade da qual a vítima seguramente não é culpada se acreditou simplesmente que o narrador fosse suficientemente sincero e cavalheiro para falar a verdade! Necessito duramente dizer que tal coisa é absolutamente inadmissível. Em circunstância alguma pode existir algo divertido em se contar uma mentira ou iludir o próximo. Tão perversa será a palavra quanto a ação, e não há fins que justifiquem uma ou outra. 

O sábio não discute. Todo ser humano é dotado de certa quantidade de força, cabendo-lhe a responsabilidade por usá-la com o máximo de proveito possível. Uma das maneiras fúteis de a desperdiçar é gastá-la em discutir. Por vezes, algumas pessoas vêm a mim pretendendo questionar Teosofia: eu invariavelmente me eximo. Conto-lhes que estou de posse de certas informações que lhes poderei oferecer a respeito do que eu próprio tenho visto e experimentado. Se esse testemunho lhes for de valia, serão mais que bem-vindos, e terei satisfação em pô-lo ao seu dispor, tal como o tenho feito repetidas vezes neste e em outros livros. Mas não me sobeja tempo para discutir o assunto com pessoas que não acreditam em mim. Cabe-lhes todo o direito à sua própria opinião, e têm plena liberdade de crer ou não crer naquilo que elegerem. Não discuto com os que não podem aceitar o meu testemunho; mas também não tenho tempo a perder com eles, porque o meu tempo pode ser muito mais útil aos que se acham preparados para aceitar a mensagem que tenho a dar. 

A Whistler atribui-se o haver uma vez observado durante conversação sobre arte: 'Não estou discutindo convosco; estou expondo-vos fatos'. Parece-me que é a posição mais avisada para o teósofo. Vimos estudando certas coisas; até onde temos ido, sabemos que são verdadeiras, e desejamos explicá-las; se os outros estão ou não preparados para aceitá-las, é assunto que lhes diz exclusivamente respeito, e fazemos votos por que tenham bom resultado na linha de investigação que desejam seguir. A discussão conduz frequentemente a sentimentos inflamados e até mesmo de hostilidade – o que deve a todo custo evitar-se. Quando se fizer necessário discutir algum assunto, com vistas a decidir sobre um modo de proceder, que se faça sempre com serenidade e lhaneza; deixemos a cada um expor seu próprio caso deliberada e cortesmente, e ouçamos com polidez e deferência as opiniões alheias."

(C. W. Leadbeater - O Lado Oculto das Coisas - Ed. Teosófica, Brasília -  p. 276/276)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O ESPÍRITO DO GUERREIRO

"Embora tenhamos sido levados a acreditar que se abrirmos mão acabaremos sem nada, a própria vida revela seguidamente o contrário: o desapego é a senda para a verdadeira liberdade. 

Exatamente como os rochedos da orla do mar que açoitados pelas ondas não sofrem dano mas são esculpidos e erodidos em belas formas, nossas personalidades podem ser modeladas e nossas arestas mais rudes atenuadas por mudanças. Podemos aprender com mudanças desgastantes a desenvolver uma suave mas inabalável tranquilidade. Nossa autoconfiança cresce e fica tão maior, que a bondade e a compaixão começam a irradiar de nós naturalmente e a trazer felicidade aos outros. Essa bondade é o que sobrevive à morte, uma bondade fundamental que existe em cada um de nós. Nossa vida toda é um ensinamento sobre como revelar essa profunda bondade, e um treino para realizá-la.

Desse modo, cada vez que as perdas e decepções da vida nos ensinam alguma coisa sobre a impermanência, elas nos trazem mais perto da verdade. Quando você despenca de uma grande altura, só há um lugar possível para aterrisar: o solo; o solo da verdade. E se você possui o entendimento que deriva da prática espiritual, essa queda de modo algum é um desastre, mas a descoberta de um refúgio interno. 

Dificuldades e obstáculos, se adequadamente compreendidos e usados, podem muitas vezes tornar-se uma fonte inesperada de energia. Nas biografias dos mestres, você verificará uma e outra vez que se eles não tivessem enfrentado dificuldades e obstáculos não teriam descoberto a força de que precisavam para superá-los. Isso aconteceu, por exemplo, com Gesar, o grande rei guerreiro do Tibete, cujas aventuras compõem o maior épico da literatura tibetana. Gesar significa 'indomável', alguém que nunca pode ser derrotado. Desde o momento em que Gesar nasceu, Trotung, seu tio mau, tentou matá-lo de todas as maneiras. Mas a cada tentativa Gesar tornava-se mais forte. De fato, foi graças aos esforços de Trotung que Gesar se tornou tão grande. Isto deu origem a um provérbio tibetano: Trotung tro ma tung na, Gesar ge mi sar, o que quer dizer: 'Se Trotung não tivesse sido tão mai e intrigante, Gesar nunca teria se erguido tão alto'.

Para aos tibetanos, Gesar não é somente um guerreiro marcial mas também um guerreiro espiritual. Ser um guerreiro espiritual significa desenvolver um tipo especial de coragem que é, desde a sua origem, inteligente, bondosa e destemida. Os guerreiros espirituais podem ainda ter medo, mas mesmo assim eles são corajosos o bastante para experimentar o sofrimento, para relacionar-se de maneira franca com seu medo fundamental e, sem fugir, extrair lições das dificuldades. Como nos disse Chögyam Trungpa Rinpoche, tornar-se um guerreiro significa que 'podemos trocar nosso mesquinho desejo de segurança por uma visão muito mais vasta - a do destemor, abertura e heroísmo genuínos...' Penetrar no campo transformador dessa visão muito mais vasta é aprender a se sentir em casa em plena mudança, e a fazer da impermanência um amigo."

(Sogyal Rinpoche - O Livro Tibetano do Viver e do Morrer - Ed. Talento/Ed. Palas Athena, 1999 - p. 60/61


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

PEREGRINOS NO CAMINHO

Resultado de imagem para peregrino no caminho"'Dá  luz e conforto ao cansado peregrino, e procura aquele que sabe ainda menos do que tu.' Com estas palavras A Voz do Silêncio instrui o aprendiz na senda espiritual a agir positivamente em auxílio de seus irmãos e irmãs. Todos somos peregrinos, movendo-nos consciente ou inconscientemente rumo à meta da vida unificada. Mas aos poucos, aqueles que estão despertos para o seu próprio desenvolvimento e o da humanidade, nesta peregrinação, têm tanto o privilégio quanto a responsabilidade da obediência a uma regra mais exigente. 

'Dá luz...'  Para consegui-lo, devemos ter luz para dar. A Tradição-Sabedoria afirma que a luz está no interior, seu brilho aguardando apenas a remoção dos obscurecedores véus da ignorância e do egoísmo. Como eles são dissolvidos lentamente pelo conhecimento e o aumento do altruísmo, a luz começa a se mostrar na ação compassiva, num vivo interesse nas crenças, necessidades e interesses dos outros, no compartilhamento de nossos modestos insights quanto a verdade. 

'Se tu sabes, é teu dever ajudar outros a saberem.' Mas ouve-se a reclamação: não sei o suficiente. Aqui está um daqueles termos incompletos ignorado pelo especialista em lógica por ser destituído de significado genuíno. Suficiente para quê? A instrução diz: 'Procura aquele que sabe ainda menos do que tu', e, para isso, não há quem não saiba o suficiente. 

A vontade de ajudar, de aprender para ajudar, o amor que libera a vontade, tudo isso nos permite dar nossa pequena luz àqueles que têm ainda menos. Estamos cercados de pessoas que não compreendem o propósito da vida, a grande lei que leva à retidão, a oportunidade perene e a certeza da realização última, o significado da imortalidade e o fenômeno recorrente do nascimento e da morte. Mas nós devemos estudar para compreender essas coisas, se quisermos ajudar os outros a também compreender.

'...e conforto...'  Uma lanterna em frente aos olhos traz uma luz dolorosa. Em vez de mostrar o caminho, ela impossibilita vê-lo. A mesma luz, projetada e direcionada para a senda à frente, parece muito menos clara, mas permite um avanço firme. O mesmo se dá com a luz da Tradição-Sabedoria. Lançada imprudentemente no rosto do peregrino que ainda está tateando no caminho rumo à verdade, torna-se um motivo de tropeços e um obstáculo ao progresso.

Acompanhando a insistência sobre o dever de compartilhar o conhecimento, o estudante teosófico encontra forte oposição ao proselitismo ou qualquer tentativa para controlar os pensamentos dos outros pela alegação de autoridade. A luz deve ser oferecida, não imposta, e deve ser modificada a tal ponto que auxilie o viajente ao longo de seu próprio caminho. Oferecer-lhe a luz que seus olhos podem ver exige que o pretenso ajudante penetre compreensivamente a experiência do outro, busque compreender suas necessidades e o tipo de inspiração à qual ele consegue responder. Paulo, em sua sabedoiria, tornou-se todas as coisas para todos os homens, para que eles pudessem encontrar, em seus próprios caminhos, em seus próprios eus, a luz que ilumina cada homem."

(Ianthe Hoskins - Peregrino no caminho - Revista Sophia, Ano 16, nº 76 - p. 9)