terça-feira, 26 de outubro de 2021

A INVESTIGAÇÃO POR PRAZER - VII

"Qual é o remédio para esta miséria e para este consumo de esforços? Existe algum? Com certeza a vida possui uma lógica em si mesma e uma lei que faz a existência possível. De outro modo o caos e a loucura constituiriam o único estado a que se poderia chegar.

Quando um homem pela primeira vez bebe sua taça de prazer, sua alma fica cheia de indescritível gozo, que causa uma sensação primeira e nova. A gota de veneno que verte na segunda taça, se persiste naquela loucura, é dobrada e triplicada, até que, por fim, a taça inteira é veneno, o qual é o ignorante desejo de repetição e intensificação. Isto evidentemente significa morte, segundo da analogia se deduz. O menino se converte em homem; não pode reter sua infância e repetir e aumentar os prazeres da mesma, a menos de pagar o preço inevitável e de se converter num idiota. A planta crava suas raízes na terra e lança no ar suas verdes folhas; floresce depois e frutifica. A planta que unicamente lança raízes e folhas, detendo-se com persistência no seu desenvolvimento, é considerada pelo jardineiro como uma coisa inútil, e deve ser arrancada. 

O homem que escolhe o caminho do esforço e recusa ceder ao sonho da indolência, permitindo que esta endureça sua alma, encontra nos seus prazeres um novo e mais delicado gozo, cada vez que os experimenta; uma certa coisa sutil e indefinível que se levanta cada vez mais daquele estado em que a mera sensualidade domina; esta ciência sutil, é aquele elixir da vida que faz o homem imortal. Aquele que o experimenta e não quer beber a menos de que a taça o contenha, encontra a vida mais ampla e o mundo cresce ante os seus olhos ardentes. Reconhece a alma na mulher à qual ama e a paixão se converte em paz; ele vê no interior do seu pensamento as mais delicadas qualidades da verdade espiritual, a qual está fora da ação do nosso mecanismo mental e então, em vez de entrar no redemoinho confuso dos intelectualismos, permanece sobre o dorso vasto da águia da intuição e se deixa ficar no ar sutil, onde os grandes poetas sua intuição encontram. Ele vê no seu próprio poder de sensação, de prazer no ar fresco e na luz do sol, na comida e no vinho, no movimento e no repouso, as possibilidades do homem etéreo, daquilo que não morre nem com o corpo nem com o cérebro. Nos prazeres que a arte proporciona, na música, na luz, na beleza; nestas formas, vê ele a glória das Portas de Ouro e passa através das mesmas para encontrar a vida nova, que atrás delas existe e que embriaga e fortalece, do mesmo modo que o ar puro da montanha fortalece e embriaga, graças ao seu vigor. Mas se foi vertendo, gota a gota e cada vez mais, e elixir da vida em sua taça, é já suficientemente forte para respirar este ar intenso, para viver nele. Então, seja que morra, seja que viva na forma física, do mesmo modo avança e com novos e delicados gozos se encontra, experiências mais satisfatórias e perfeitas se lhe apresentam a cada golfada deste ar puríssimo que aspira."

(Mabel Collins - Pelas Portas de Ouro - Ed. Pensamento, São Paulo - p. 28/29

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A INVESTIGAÇÃO POR PRAZER - VI

"A indolência é, de fato, a maldição do homem. Assim como o lavrador irlandês e o cigano cosmopolita vivem na pobreza e na miséria por causa de sua completa ociosidade, do mesmo modo o homem do mundo vive contente pela mesma razão, no meio dos prazeres sensuais. Beber vinhos delicados, comer manjares esquisitos, o amor de cores e de sons brilhantes, de formosas mulheres e de magníficos objetos em seu redor, tudo isto, para o homem cultivado, nem tem mais importância nem é mais satisfatório como motivo final de gozo, do que são as grosserias, diversões e prazeres do moço da lavoura, para o homem não cultivado.

Não pode existir o ponto final, porque a vida em cada uma de suas formas é só uma vasta série de delicadas graduações e o homem que decide permanecer imóvel no ponto de cultura que alcançou e confessa que não pode ir mais longe, faz simplesmente uma arbitrária afirmação para desculpar sua indolência. 

Existe, sem dúvida, a possibilidade de declarar que o cigano vive contente no meio da sua pobreza e a sujidade e que, portanto, é tão grande homem como o mais perfeitamente cultivado. Para ele unicamente é assim enquanto permanece na ignorância; no momento em que a luz penetra na obscura inteligência, o homem se volta a ela inteiramente. Assim acontece na mais elevada plataforma, porém a dificuldade de penetrar na mente, de admitir a luz, é muito maior. O lavrador irlandês ama sua aguardente e, enquanto possa tê-la, para nada se preocupar das grandes leis de moralidade e de religião, que se supõe governam e humanidade e induzem os homens a viver com temperança. O gastrônomo culto se ocupa unicamente de sabores sutis e de esquisitos perfumes; porém, estão tão cego com o simples rústico a respeito do fato de que existe algo mais além de semelhantes gratificações. A maneira do lavrador, permanece enganado por um espelhismo que oprime sua alma e imagina que, uma vez obtido um prazer sensual no qual se deleita, pode obter a satisfação suprema, graças a uma interminável repetição, com o que, por fim é presa por demência. O bouquet de vinho que o deleita, penetra em sua alma e a envenena, não lhe deixa outros pensamentos além dos sensuais e se encontra na mesma situação desesperada do homem que morre louco devido a embriaguez. Que benefício obteve o bebedor, da sua demência? Nenhum; a dor devorou, por fim, completamente o prazer e a morte avança para terminar a agonia. O homem sofre o castigo final por sua persistente ignorância de uma lei da natureza, tão inexorável como aquela da gravitação; uma lei que proíbe ao homem permanecer imóvel. Nem sequer duas vezes a mesma taça de prazer se pode saborear; a segunda vez deve conter ou um grão de veneno ou uma gota do elixir da vida. 

O mesmo argumento conserva sua força quanto aos prazeres intelectuais; a mesma lei opera. Vemos homens que, quanto à inteligência, são a flor da sua época, que vão muito mais longe que seus irmãos, que a maneira de torres sobressaem entre eles, são arrastados enfim pela roda fatal, girar sobre a mesma, à maneira de manivelas, cedendo à indolência inata da alma e começando a se engar a si mesmos com a quimera da repetição. Então vem a debilidade e a falta de vida, aquele estado infeliz e enganoso no qual, com demasiada frequência, grandes homens entram, justamente quando a metade da sua vida transcorreu. O fogo da juventude, o vigor da inteligência jovem, vence a inércia interna e faz que o homem escale alturas de pensamentos e encha seus pulmões mentais com o ar livre das montanhas. Mas então, afinal, a reação física dele se apodera; o mecanismo físico do cérebro perde seus ímpetos poderosos e começam seus esforços a se debilitarem, simplesmente porque a juventude do corpo tem um fim. Então é o homem assaltado pelo grande tentador da raça, que sempre em vigia permanece junto à escada da vida, pronto a lançar-se sobre aqueles que a tais alturas chegam. Verte a envenenada gota em seu ouvido e desde aquele momento a consciência toda se converte em estupidez e fica o homem aterrorizado, receando que para ele a vida vai perdendo suas possibilidades. Lança-se então atrás, a um campo de experiência familiar e ali encontra alívio tocando a bem conhecida corda da paixão ou emoção. E muitos, por desgraça, tendo feito isto, dilatam assustados ao lançar-se ao desconhecido e se contentam com fazer soar continuamente aquela corda que com mais facilidade responde. Graças a isto, conservam a certeza de que a vida ainda arde no seu interior. Mas, por fim, seu destino é o mesmo do gastrônomo e do bebedor. O poder do feitiço vai sendo menor de dia para dia, à medida que o mecanismo sensitivo vai perdendo sua vitalidade, e pretende o homem ressuscitar o fervor e excitação antigos, fazendo com mais violência soar a nota, abraçando-se mais estreitamente àquilo que lhe faz sentir, esgotando até o fel a taça envenenada. Então está perdido: a loucura se apodera da sua alma, do mesmo modo que faz presa do corpo do borracho. A vida não tem já, para ele, significação alguma e ferozmente se lança nos abismo da demência intelectual. O menos importante dos homens que cometa esta grande loucura, arrasta os espíritos dos demais por uma triste adesão a um familiar pensamento, por um abraço persistente à roda do moinho que afirma ele ser o objetivo final. A nuvem que o rodeia é tão fatal como a própria morte e os homens que uma vez se prostraram a seus pés, se afastam dele pesarosos e têm que olhar atrás, ter presentes suas primitivas palavras se querem recordar sua grandeza." 

(Mabel Collins - Pelas Portas de Ouro - Ed. Pensamento, São Paulo - p. 25/27)   


terça-feira, 19 de outubro de 2021

A INVESTIGAÇÃO POR PRAZER - V

"Quando parece que o fim foi alcançado, o desígnio logrado e que o homem não tem já nada mais que fazer, então justamente, quando parece que o melhor para ele é comer, beber e viver à larga como as bestas e sumido no mortal ceticismo, então, de fato, se olhar quisesse tão só, as Portas de Ouro que ante ele estão. Com a cultura do século em seu interior e tendo perfeitamente assimilado que ele é uma encarnação da mesma, então está em disposição de intentar o grande passo que, apesar de ser absolutamente possível, é intentado por tão poucos, mesmo entre aqueles que podem fazê-lo. É intentado tão raras vezes, em parte devido às profundas dificuldades que o rodeiam, mas muito mais influi no mesmo, não se convencer o homem de que esta é a direção, na atualidade, na qual a satisfação e o prazer têm que ser obtidos. 

Cada indivíduo se sente atraído por certos prazeres; cada um dos homens conhece que numa ou noutra espécie de sensação encontra suas maiores delícias. E, naturalmente, durante sua vida, a ela de um modo sistemático se dirige, não de outra maneira, o girassol na direção do sol se volta e o lírio sobre a água se inclina. Porém, está lutando continuamente com o fato terrível que oprime sua alma, ou seja que tão depressa como obteve seu prazer, o perde, e uma vez mais tem que andar em sua busca. Mais do que isto jamais na atualidade alcança, porque no momento final lhe escapa. Acontece-lhe isto, porque procura colher o que é impalpável a satisfazer a sede da sua alma com a sensação, por intermédio do contato dos objetos externos. Como pode o que é exterior satisfazer, ou tão somente agradar, ao homem interno, que é o que reina no interior e que não tem olhos para a matéria, nem mãos para tocar os objetos, nem sentidos com os quais se informar do que fora das suas mágicas paredes existe? Aqueles encantadas barreiras que o rodeiam carecem de limites, porque está em todas as partes; deve ser descoberto em todas as coisas viventes e não se pode conceber sem ele nenhuma parte do universo, se este é considerado como um todo coerente. Se desde o começo não se concede o anterior, é completamente inútil considerar a questão da vida. Na verdade, a vida precisa de significação, a menos de ser universal e coerente e a menos que sustenhamos nossa existência devido ao fato de que somos uma parte daquilo que é; não pela razão da nossa própria existência.    

Este é um dos mais importantes fatores do desenvolvimento do homem, o reconhecer o profundo e completo reconhecimento da lei de universal unidade e coerência. A separação existe entre os indivíduos, entre os mundos, entre os diverso polos do universo e da fantasia mental e física chamado espaço, é um pesadelo da imaginação humana. Que os pesadelos existem e que existem só para atormentar, não há criança que não o saiba e o que necessitamos é a faculdade de distinguir entre a fantasmagoria do cérebro que a nós unicamente concerne e a fantasmagoria da vida diária, na qual outros também estão interessados. Esta regra se aplica também ao caso mais amplo. A ninguém importa mais que a nós mesmos que vivamos no meio de um pesadelo de horror ilusório e que nos imaginemos sós no universo e capazes de ação independente, durante tão longo tempo, como nossos associados são só aqueles que constituem uma parte do sonho. Mas quando desejamos falar com aqueles que chegaram às Portas de ouro e, empurrando-as, as abriram, é então inteiramente necessário, de fato é essencial, distinguir e não levar à nossa vida as confusões do nosso sonho. Se isto fazemos, somos considerados loucos e nos aprofundamos nas trevas onde não existe outro amigo que o caos. Este caos tem vindo em continuação de cada um dos esforços do homem que a história registra; depois que a civilização reinou, a flor cai e morre, o inverno e a obscuridade a destroem. Enquanto o homem recusa fazer o esforço de distinção que lhe permitiria distinguir entre as formas noturnas e as ativas figuras do dia, deve isto acontecer inevitavelmente. 

Mas se o homem tem coragem para resistir a esta tendência reacionária e permanecendo firme na altura à qual chegou, adiante seu pé para dar outro passo, porque não há de poder encontrar o que busca? Nada existe que nos dê motivos para supor que a senda termina em um certo ponto, exceto a tradição que assim o tem dito e que os homens tem aceitado e abraçado como uma justificação para sua indolência."

(Mabel Collins - Pelas Portas de Ouro - Ed. Pensamento, São Paulo - p. 22/24)