quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

ENTENDENDO O SOFRIMENTO

Resultado de imagem para ENTENDENDO O SOFRIMENTO"Por que somos insensíveis ao sofrimento do outro? Por que somos indiferentes ao trabalhador braçal que carrega algo pesado, à mulher que carrega um bebê? Por que somos tão insensíveis? Para entender isso, precisamos entender por que o sofrimento nos torna entorpecidos. Certamente, é o sofrimento que nos torna insensíveis. Porque é por não entender o sofrimento que nos tornamos indiferentes a ele. Se eu entendesse o sofrimento, então me tornaria sensível a ele, estaria alerta para tudo, não apenas para mim mesmo, mas para as pessoas à minha volta - meu cônjuge, meus filhos, um animal, um mendigo. Mas não queremos entender o sofrimento, e essa fuga nos torna entorpecidos, e, consequentemente, insensíveis. A questão é que esse sofrimento, quando não entendido, entorpece a mente e o coração. Não entendemos o sofrimento porque queremos fugir dele, por meio do guru, de um salvador, de mantras, de reencarnação, das ideias, da bebida e de qualquer outro tipo de vício - tudo para fugir do que existe...

O entendimento do sofrimento não está na descoberta da sua causa. Qualquer homem pode conhecer a causa do sofrimento - pode ser sua própria negligência, sua estupidez, sua limitação, sua brutalidade etc. Mas, se eu olhar para o sofrimento sem querer uma resposta, o que acontece? Como não estou fugindo, começo a entender o sofrimento. Minha mente está vivamente alerta, aguçada, o que significa que eu me torno sensível. Desse modo, me torno consciente do sofrimento das outras pessoas."

(Krishnamurti - O Livro da Vida - Ed. Planeta do Brasil Ltda., São Paulo, 2016 - p. 220)


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O DESPERTAR ESPIRITUAL

Resultado de imagem para O DESPERTAR ESPIRITUAL"O medo de um estado de completa liberdade interior, um total não condicionamento da mente, sem muletas para se apoiar, é irônico. É a resistência do ser humano ao estágio seguinte - o despertar espiritual. É o 'homem animal' confrontando o homem divino.

O condicionamento pode ocorrer sob quaisquer circunstâncias quando o medo da liberdade está à espreita. É engano acreditar que o condicionamento é causado por circunstâncias ou coisas particulares - organizações, cerimônias, ambientes ou ensinamentos. Esses são fatores relativamente menores; o verdadeiro problema é o medo e a dúvida sobre a liberdade interior ser plenamente desejável. Qualquer coisa pode condiconar a mente quando lhe falta percepção, e nada consegue condicioná-la se está alerta e aberta ao que está acontecendo. Os textos antigos, particularmente, mencionam um condicionamento corporal, ambiental, societário, escritural e verbal. Com a percepção, o impacto de todas essas influências será visto, e portanto a ação se tornará inteligente.

O livro Luz no Caminho declara que a inteligência é imparcial. Todo tipo de condicionamento, seja sutil ou grosseiro, é um empurrão numa determinada direção, e portanto não é imparcial. Experiências passadas incrustadas na memória fazem nascer reações mecânicas que afetam a mente tanto quanto as influências que exercem pressão 'de fora'. Imparcialidade é estar liberto de empurrões e pressões; é o estreito e direto caminho do meio entre todos os opostos.

No Dhammapada, que acreditamos conter as palavras de Buda, há uma seção sobre o estado de percepção que protege a pessoa de cair no erro. As reações e o comportamento desatento muitas vezes embaralham os relacionamentos. Palavras são ditas involuntariamente por causa de pressões internas. Um surto de mau humor ou de emoções exageradas leva a pessoa a um ponto onde ela realmente não quer estar. Depois pode haver arrependimento ou a consciência de ter perdido o controle, mas então já terá surgido uma trilha de maus sentimentos, incompreensões e desconfiança. O remédio é a atenção, que reduz e depois põe fim a essas reações.

A mente deve ser estabilizada pela atenção. Um verso do Dhammapada diz que as pessoas imaturas, infantis e pouco inteligentes se descuidam disso, enquanto as inteligentes consideram a percepção a maior riqueza. Quando há um estado de mente atento e vigilante, que é um sinal de inteligência, o resultado é um modo de viver correto, ordenado e disciplinado. Essa pessoa inteligente é comparada a uma ilha que nenhuma enchente consegue submergir, a uma chama que não tremula ao vento.

A percepção é a base da felicidade e da paz. Como assinalou Krishnamurti, as mágoas não são causadas pelas pessoas, mas pela autoimagem que é perturbada. Nenhum comentário indelicado nem lisonjeiro muda o que a pessoa verdadeiramente é. Ninguém se torna mais sábio porque alguém diz que ele é sábio, nem mais tolo porque alguém diz que ele é tolo. É o quadro de si mesmo projetado pelo pensamento que é afetado, causando ofensa ou satisfação. Uma mente firme e inteligente é aquela que compreende que esses problemas são autocriados, e por isso é livre de agitação, capaz de se transformar. Transformação e crescimento da compreensão só nascem da percepção, jamais através do condicionamento, pois condicionamento significa não percepção."

(Radha Burnier - O medo da liberdade - Revista Sophia, Ano 16, nº 76 - p. 12/14)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O MEDO DA LIBERDADE

Resultado de imagem para liberdade na natureza"O hábito é útil no plano físico. É por meio do hábito que as várias funções do corpo físico ocorrem e continuam a ocorrer de modo eficiente. Se fosse necessário aplicar a mente aos processos físicos como respiração e digestão, não sobraria energia para nada mais. Portanto, o corpo se desenvolveu de tal maneira que automaticamente cuida de suas próprias funções essenciais.

No entanto, o hábito atuante em nossa natureza psicológica, estabelecendo reflexos que evitam o uso da mente e da inteligência, está longe de ser uma vantagem. Pessoas inteligentes têm teorias a respeito de usar a propensão da mente de se condicionar como um método de mudança, mas isso é apenas mais um meio para os espertos explorarem os outros. Muitos problemas atuais - religiosos, políticos ou econômicos - envolvem esse tipo de exploração.

As pessoas se acostumam tanto aos condicionamentos que às vezes perguntam se é realmente possível viver de forma não condicionada, isto é, ser verdadeiramente livre. Implícito nessa questão está o desejo de agir mecanicamente, de ser instruído a pensar e agir, e também o medo de ser completamente livre - e inteiramente só.

O movimento evolutivo prosseguiu continuamente na direção de uma maior liberdade, tanto fisicamente quanto internamente. É claro que o animal é, fisicamente, mais livre do que o vegetal, pois não está enraizado em algum lugar; ao mesmo tempo, o vegetal é mais livre do que o mineral, pois é capaz de crescer e viver mais experiências.

Com cada reino surge uma maior liberdade; no entanto, o processo não é inteiramente físico. O ser humano exercita a escolha e não está sob compulsão, como está o animal que só se acasala quando chega a estação, ou que precisa lugar para comer. O ser humano exercita a escolha sob várias formas, como por exemplo, a decisão de compartilhar, de esperar ou de renunciar.

É simplesmente lógico, portanto, sair do condicionamento, que é a escravização a processos mecânicos, para um estado de plena percepção, que é a liberdade. Respostas psicológicas que são compulsivas - a ira que obnubila a mente, a ganância incontrolável e outros impulsos, assim como opiniões automáticas que permanecem não examinadas - são óbices óbvios à liberdade. Todas as reações irrefletidas, que surgem de experiências passadas impedem a inteligência. Em outras palavras, o condiconamento é incompatível com a liberdade e impede o verdadeiro progresso, segundo o plano evolutivo que está ampliando a liberdade estágio a estágio."

(Radha Burnier - O medo da liberdade - Revista Sophia, Ano 16, nº 76 - p. 11/12)