quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A ARTE DE CUIDAR

"A arte de cuidar é a de saber escutar. Escutar não é só ouvir; é também interpretar, capaz daquilo que chamamos de ciência e arte da hermenêutica. Como diziam os antigos rabinos, cada frase biblíca é suscetível de pelo menos 72 interpretações. Ou seja, cada sintoma, cada sonho, cada crise que vivenciamos é suscetível de pelo menos 72 interpretações. Isso nos previne contra o flagelo contemporâneo do fundamentalismo e do fanatismo; não só o religioso, também o fundamentalismo mercadológico, ideológico, pedagósico, psiquiátrico, político etc.

Fundamentalismo é superficialismo e literalismo, é tomar a parte pelo todo; é o naufrágio da intepretação, o que nos torna objeto das circunstâncias, já que nós somos livres na justa medida da nossa capacidade de interpretar. Nós não somos livres com relação àquilo que nos chega, que pode ser um tsunami, um terremoto, uma crise econômica, uma perda. A nossa liberdade consiste no que somos capazes de fazer com aquilo que nos chega, e isso demanda interpretação.

Uma pessoa que aprendeu a interpretar não vai se deixar soterrar pelas adversidades, pois a única crise intolerável é aquela para a qual não temos como dar nenhum sentido. O único sofrimento que pode nos destruir é aquele que não interpretamos. Se você é capaz de interpretar, extrairá sentido do que quer que aconteça, e conseguirá se colocar de pé e prosseguir.

'Te vejo. Estou aqui'. Essa expressão vem da tradição xamanística da África do Sul. Quando as pessoas vão saudar umas às outras, no idioma zulu, dizem sawubona, que significa te vejo; e a resposta é sikhona, que significa estou aqui. Eis o coração de uma nova educação: educar para ver, para a presença, para cuidar, para escutar, para interpretar. É atender ao telefone que toca [um celular tocou na platéia]. Toda crise é um telefone que toca e nós precisamos atender, escutar e interpretar, senão ele vai continuar tocando, às vezes com outros números.

Infelizmente, no que denominamos de normose, a patologia da normalidade, afirmamos: 'Tomou doril, a dor sumiu'. Você vai ao médico com um problema e, quando normótico, a única atitude desse técnico será eliminar o sintoma. Certa vez uma pessoa me procurou no consultório com dor nos seios, depois de ter consultado muitos médicos em vão. Ela já estava com algumas fantasias catastróficas a respeito dessa dor. Indaguei se ela podia se colocar no lugar dos seios e falar como se fosse eles. Ao entrar em contato com essa parte do corpo, ela imediatamente se conectou com algo que tinha recentemente acontecido: havia se separado do marido e abriu mão da guarda do filho. Desde então, os seios da maternidade começaram a doer. Quando ela pôde fazer a catarse, redecidindo a tua atitude, saiu do consultório sem dor. Mas imagine se não tivesse escutado o seu sintoma, se não o tivesse interpretado... Um dia, faria uma doença física. Geralmente as doenças começam num plano mais sutil e depois contagiam o plano concreto, que é o físico."

(Roberto Crema - A arte de cuidar - Revista Sophia, Ano 11, nº 41 - p. 8/9)


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NÃO TEMAS

"(...) o medo é o grande assassino da experiência espiritual. Quando nos vemos enleados em preocupações, apreensões, ansiedades e angustias, perdemos psicologicamente nossa capacidade de sentir empatia pelos nossos semelhantes - e até por nós mesmos. Por extensão, perdemos a capacidade de nos relacionarmos amorosamente com o núcleo espiritual de nosso ser. Em outras palavras, perdemos o contato com Deus quando sentimos medo.

Há na Biblia 62 passagens em que Deus ou Jesus diz: 'Não temas'. Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, conta-nos: 'A palavra de Deus veio a Abraão em sonhos dizendo: Não temas'. E logo à frente: 'Deus apareceu a ele e disse... Não temas, pois estou contigo'. Jesus associava a perda do medo à cura: 'Jesus aproximou-se deles e disse-lhes: 'Levantai-vos e nada receeis.'. Aos que se perturbavam ante as coisas terríveis que iriam acontecer no futuro, declarou: 'Ouvireis falar de guerras. Dir-vos-ão que a guerra é iminente. Mas não vos deixeis levar pelo medo'.

Talvez ainda mais importantes para a vossa compreensão do medo sejam suas palavras memoráveis: 'Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não se perturbe nem intimide o vosso coração'.

Isso é bastante claro: não deixem que nada perturbe o seu coração. Não temam coisa nenhuma. Vivam fora do alcance das ansiedades debilitantes e das apreensões.

Mas, de que modo? Como terapeuta, descobri uma única maneira de escapar às garras do medo: enveredar pelo caminho da meditação, aprender a serenar a mente, calar os fluxos de pensamentos que geram nossas preocupações e ansiedades, abrir o coração para a realidade contrária ao medo: o amor.

A psicologia cognitiva demonstrou cientificamente, nos últimos trinta anos, que a ansiedade não é uma emoção isolada e que os maus pressentimentos não constituem estados independentes. Ao contrário, eles emergem diretamente das imagens e pensamentos negativos habituais que passam por nossa cabeça. O fato psicológico elementar é que, se não estivermos sob ameaça física imediata, só um pensamento é capaz de nos deixar ansiosos.

Obviamente, podemos trabalhar esse dado de pesquisa e remover o medo de nossa vida aprendendo a distanciar-nos de tais pensamentos, que geram reações emocionais e psicológicas de pânico. Pois é exatamente o que fazemos em nosso método de meditação. Aprendemos a estar 'tranquilos' e, em consequência, alcançamos a paz espiritual de que tantas vezes falou Jesus. (...)

Constatei. ao longo dos anos, que o tratamento psicológico da ansiedade quase sempre falha sem uma dimensão espiritual meditativa. A terapia cognitiva pode encher-nos a cabeça de pensamentos positivos que anulem os negativos; mas só quando aprendemos a calar inteiramente todos os pensamentos é que mergulhamos de fato na 'paz para além de todo entendimento', como disse o Salmista. Também aprendi que eliminar imagens e pensamentos suscitados pelo medo, a fim de receber o influxo do amor espiritual, é um ato de vontade: temos de, sempre, escolher conscientemente o amor em detrimento do medo par que isso se torne nosso novo modus operandi."

(John Selby - Sete Mestres, Um Caminho - Ed. Pensamento-Cultrix Ltda., 2004 - p. 114/115)


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A ALMA E DEUS

"'Deus é o oceano do Espírito, e os seres humanos são como as ondas que se levantam e se quebram na superfície do oceano.

'Vistas de um barco a remo, as ondas parecem infinitamente variadas. Algumas são grandes e ameaçadoras; outras pequenas, e é fácil remar sobre elas; porém, quando a pessoa está num avião, tudo o que se vê é o oceano, não as ondas na superfície. 

'Ainda assim, a alguém que está absorto na encenação de maya - à pessoa ligada ao sucesso e receosa do fracasso; preocupada com a saúde e com medo da doença; presa à existência terrena e com medo da morte - as ondas da experiência humana parecem reais e infinitamente variadas. Ao homem do desapego, entretanto, tudo é Brahama: Tudo é Deus.

'Quanto maior a tempestade, mais elevadas as ondas do oceano. Ainda assim, quanto mais violenta a tempestade da ilusão na mente da pessoa, mais essa pessoa se exalta com relação aos outros, e mais afirma a própria independência, tanto do homem como também de Deus.

'Poderá alguém escapar de seu Criador? Todos fazemos parte de Deus, da mesma forma que as ondas fazem parte do oceano. Nossa separação de Deus não passa de simples aparência.

'Quando as pessoas afirmam sua individualidade, e, por isso, se engrandecem na vaidade e no orgulho, elas se chocam agressivamente contra outras ondas do ego, instigadas todas elas pela tempestade de ilusão. Assim como as ondas do aceano numa tormenta, elas ondulam e se encapelam em toda parte, às vezes conquistando, às vezes sendo conquistadas, num frenesi sem fim de conflitos e rivalidades.

'Numa tempestade, a superfície do oceano ignora a paz. De modo semelhante, enquanto a tormenta da ilusão ruge na mente humana, uma pessoa não sabe o que é ter paz, mas só conhece a tensão e a ansiedade.

'A paz chega quando a tempestade se aquieta, quer externamente, na natureza, quer internamente, na consciência da pessoa. Quando se amaina a tempestade de maya, as ondas do ego se amainam também. Quando o ego do devoto diminui, ele relaxa e aceita uma vez mais sua ligação com o Espírito infinito.

'Pessoas espiritualmente desenvolvidas não disputam entre si, porém mergulham na água alegremente, em feliz harmonia umas com as outras, com a natureza e com Deus."

(Paramhansa Yogananda - A Essência da Autorrealização - Ed. Pensamento-Cultrix Ltda., 2012 - p. 36/37)