domingo, 3 de setembro de 2017

O CAMINHO PARA A HARMONIA

"Quando nos sentamos e contemplamos o mar, o céu, a lua ou as estrelas, temos uma sensação de espaço e eternidade. Isso muda, pelo menos por algum tempo, não apenas a nossa psique, mas também o corpo.

Quando a consciência é inocente, há menos impureza a obstruir a luz, e sente-se a beleza mais profundamente. Pensamentos ruins, preconceitos e ideias preconcebidas fazem a vida parecer enfadonha e árida. A inocência de uma criança é um complemento à beleza; nessa inocência, há também virtude. A verdadeira virtude é a beleza da luz divina se irradiando do nosso interior.

As palavras de uma canção ou o tema de um quadro não tornam a arte religiosa. Para ser verdadeiramente religioso, devemos abandonar o desejo de estar numa forma individual e fluir para a beleza do universal. Sem sensibilidade para o universal, podemos estar engajados não apenas em um ritualismo vazio, mas também em formas de arte vazias. As formas podem ser tecnicamente excelentes, mas não contêm a essência da arte, e portanto não possuem a qualidade religiosa.

O princípio da verdade não pode ser captado enquanto a mente estiver poluída com desejos e atividades autocentradas. Só quando estamos livres do desejo a virtude pode penetrar em nosso coração. Então temos uma visão da totalidade, que é a verdadeira religião.

Para que a virtude possa surgir, tudo o que é supérfluo deve ser removido. Assim como o escultor desbasta o mármore para revelar uma forma, devemos desbastar o que foi acrescentado à nossa natureza, até que emoções e pensamentos sejam puros e inocentes. Krishnamurti chamava isso de austeridade; ele dizia que austeridade é 'a simplicidade da mente purgada de todo conflito, que não está presa ao fogo do desejo, mesmo o desejo mais elevado. Sem essa austeridade não pode haver amor'.

A religião da beleza é o caminho para a pureza e a harmonia com tudo. Isso significa virtude e amor. Com uma mente silenciosa e o coração aberto ao grande oceano da vida, com todas as suas belezas, nenhuma outra religião é necessária."

(Radha Burnier - A religião da beleza - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 6)

sábado, 2 de setembro de 2017

A RELIGIÃO DA BELEZA (PARTE FINAL)

"(...) A resposta à beleza transmuta a consciência. Quando vemos a luz do sol se derramando sobre as folhas ou sentimos a beleza do entardecer, algo se abre dentro de nós. Há um sentimento de alívio e deleite, pois a beleza nos libera, nos põe em contato com o eu, com a nossa natureza mais profunda, onde está o sujeito que não pode ser visto ou ouvido, mas que é todo percepção. A beleza é uma ponte entre o eu e a essência daquilo que vemos. A experiência da beleza nos transporta ao universal.

Tudo que é belo abre uma vereda para o sagrado e o santificado, porque é um fragmento manifestado das verdades divinas. Segundo Hugh l'Anson Fausset, 'pela visão espiritual daqueles que viram a beleza celestial, podemos descobrir a realidade à qual pertencemos e participar de seu mistério.'

Por isso, os Upanishades aconselham: aprenda a olhar, ouvir, penetrar em você mesmo e meditar, pois é assim que a consciência universal é conhecida. Krishnamurti também recomendou, com insistência, que as pessoas observassem e escutassem.

A verdade se mantém aberta a todas as formas de beleza. Beleza é ordem. Por isso há um sentimento de santidade na contemplação da ordem natural. Há uma beleza aterradora na progressão ordenada das estrelas e no crescimento de todas as coisas de acordo com sua natureza própria. Há uma grande beleza na ordem que não foi criada por nós. Isso cria uma sensação de confiança, de que tudo está bem; nos diz que existe justiça o tempo todo, porque a ordem celeste governa o universo."

(Radha Burnier - A religião da beleza - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 5/6)


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A RELIGIÃO DA BELEZA (1ª PARTE)

"A vida é beleza. A beleza está em todas as formas de vida - na grande folha da bananeira e no formato delicado da samambaia. Tudo na natureza é belo. Quando observados de perto, um pequenino grão de areia, a asa de um inseto, uma labareda, tudo é capaz de arrebatar o coração.

A beleza também está no movimento: o voo dos pássaros, a queda d'água, os majestosos movimentos do elefante, o veado correndo na floresta.

Há beleza, ainda, em toda qualidade especial que distingue um indivíduo dos outros. Há beleza na mente que voa para o céu, examina a criação e alcança a compreensão. Há beleza no silêncio e no som. Portanto, a vida é beleza.

Toda a vida é beleza para os olhos que podem ver. Mas o fato é que nossos olhos não veem. Aquilo que achamos que vemos não é visto pelos olhos, mas pelo eu. O que escutamos não é ouvido pelos ouvidos, mas pelo eu. Não se trata do eu que conhecemos ('eu sou isso', 'eu não sou aquilo'). O eu é o puro objeto, o vidente que não pode ser visto. Ele permite ver, ouvir, conhecer e sentir a beleza.

O eu imortal não é pessoal; não é a imagem que fazemos de nós mesmos. Ele é o vidente, profundo e universal. Ser humano significa responder à beleza das cores e formas, do som, da natureza, ao delicado uso das palavras ou à beleza do pensamento e caráter. Essa resposta é uma qualidade da consciência humana. (...)"

(Radha Burnier - A religião da beleza - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 5)