terça-feira, 27 de dezembro de 2016

UMA CONSCIÊNCIA SUPERIOR (1ª PARTE)

"Mais cedo ou mais tarde a verdade mostra que, se podemos nos perder entre as coisas mundanas como um homem que vagueia numa floresta, podemos ainda mais facilmente nos perder entre os pensamentos. Pois, se existem mil coisas, existem milhões de pensamentos possíveis sobre elas - e quem é capaz de saber qual é o melhor pensamento, a não ser que os tenha experimentado todos? Se um náufrago como Robinson Crusoé chegasse a uma ilha desabitada e tivesse que buscar o melhor lugar para morar, poderia procurar durante toda a sua vida antes de decidir. Não é só por meio do pensamento que encontramos a verdadeira direção da vida. A intuição deve ser somada à instrução.

A humanidade aprende de duas maneiras com a instrução e a intuição, mas de fato o homem realmente só entende através da intuição. Por instrução queremos dizer o ensinamento exterior por meio da experiência. Mas os objetos no nosso campo de percepção não são compreendidos, não importa o quanto olhemos ou pensemos, até que haja um lampejo de intuição.

É comum as pessoas pensarem que sabem o que as coisas são porque as veem, mas esse não é o caso. Verdadeiramente as vemos, mas não sabemos o que elas são; a visão é sem sentido, a não ser que algo surja das profundezas da mente e diga: 'Ah, eu conheço você!' Esse processo é tão rápido com coisas familiares que a maioria das pessoas não o percebe. Imagine que você abra um livro em sânscrito ou japonês; verá inúmeros sinais sem significado, mesmo que vire a página de cabeça para baixo. Mas se você conhece a escrita, é diferente. Conhecemos a escrita de tábuas e cadeiras, árvores, montanhas e todas as coisas segundo nosso ponto de vista, e é assim que as coisas ganham significado.

Os grandes pensadores estão prontos a dar testemunho no conhecimento. Newton descobriu o princípio da gravitação assim. Ele viu uma maçã cair e se perguntou por que as coisas sempre caem. E então teve o lampejo de que as maçãs não caem realmente, embora pareçam fazê-lo. Ele compreendeu que matéria atrai matéria - a maçã e a terra corriam para se encontrar, embora a terra, com massa muito maior, efetue apenas uma parte pequena do aparente movimento. (...)"

(Ernest Wood - Instrução e intuição - Revista Sophia, Ano 9, nº 33 - p. 28)
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

INSTRUÇÃO E INTUIÇÃO

"O homem pode ser simbolizado por uma correnteza, às vezes fluindo de maneira prazerosa, ampla e plácida, por prados sorridentes, ou prados estreitos e profundos, rugindo à medida que avança entre penhascos, sobre um leito de pedra. Isso é uma corrente, não de água, mas de reproduções de fatos entremeados com fantasias na mente, uma corrente coberta com bolhas representando fatos e fantasias que se formam e se quebram repetidamente. A consciência do homem é conduzida ao longo dessa correnteza, sorvendo, à medida que segue em frente, as delícias e tristezas do prazer e da dor. Os homens pensam que vivem uma vida material externa, mas na verdade vivem nessa corrente.

Na correnteza, à medida que ela passa entre as margens, são soprados todos os tipos de folhas e poeira, e às vezes pedras desabam dos penhascos; logo essas coisas chegam ao fundo ou ficam à deriva e se dirigem às margens, mas formaram suas bolhas na corrente - fatos certos ou errados -  que a memória forma e que o esquecimento quebra repetidamente. Por meio dos sentidos, novos fatos penetram a correnteza de vida e de consciência, instruíndo o homem.

Tudo significa algo segundo o que cada pessoa é. Um homem pode construir vários significados a partir de uma experiência - uma informação é para o corpo, outra para a mente, outra para a alma. O mundo é como um livro: algumas partes em letras grandes, de modo que até os apressados conseguem ler; outras em letras pequenas e outras ainda em caracteres de diamante; algumas são para todos, e algumas são especiais para cada necessidade.

Mas além dessas instruções do mundo e dos objetos materiais, frequentes nas horas de vigília, existem também intervenções sutis. Lampejos de luz solar penetram nessa corrente vindos de cima, iluminando sua superfície e às vezes suas profundezas e, quando chegam, o homem compreende alguns fatos, num sentido novo e mais profundo. Isso é intuição, o trabalho do pensamento mais profundo do que aquele que é levado pela corrente.

O pensamento informa ao homem o significado das coisas conforme os interesses de sua personalidade. Diz como conhecer coisas e planejar seu uso, para que o corpo, as emoções e a mente possam estar seguros, tornando-o um bom aluno para quem a instrução é útil. Mas a instrução não pode explicar o significado das coisas para a alma, e assim remover o sentimento de desassossego e o desejo de um propósito e uma meta na vida."

(Ernest Wood - Instrução e intuição - Revista Sophia, Ano 9, nº 33 - p. 27)


domingo, 25 de dezembro de 2016

MUDANÇAS CONSTANTES (PARTE FINAL)

"(...) As crianças permanecem felizes mesmo em circunstâncias difíceis. Elas brincam, distraem-se  com qualquer coisa que haja em torno e continuam felizes. A questão de aceitar ou não as mudanças não surge no caso das crianças, porque para elas a vida é uma brincadeira; quando o brinquedo deixa de ser interessante, elas simplesmente o abandonam para fazer alguma outra coisa. Assim, quase como uma criança, podemos abrir mão de algo divertido ou belo. Mas não conseguimos fazê-lo quando a coisa permanece na memória; queremos experienciar o mesmo repetidamente, talvez com alguma pequena mudança que nos agrade. Portanto, o sentimento do 'eu' é criado por uma atitude que recusa aceitar o que não pode ser eterno.

Nenhum de nós é o tipo de indivíduo independente que pensamos ser. Faz parte do eu imaginar-se um indivíduo forte (se possível, mais forte do que qualquer outro). Mas se investigarmos em profundidade, descobriremos que, como qualquer outra pessoa, somos dependentes de muitas coisas diferentes para nossa existência, e que é enganoso o conceito de uma entidade permanentemente independente.

É útil não apenas pensar, mas também meditar a respeito disso. Não será de curta duração esse corpo e essa situação na qual nos encontramos? Podemos viver durante cem anos, mas o que são cem anos na história? Nada. Assim, as perguntas que temos de nos fazer são: 'O que vive realmente? O que é o sentimento de ego que surge em nós?' Devemos responder a essa pergunta por nós mesmos. Certamente existem filosofias que afirmam existir um Atman (espírito universal) permanente, a raiz de tudo que existe. Mesmo que seja assim, temos que entender o pequeno eu e as muitas coisas que experienciamos como ilusão."

(Radha Burnier - O caminho do desapego - Revista Sophia, Ano 10, nº 40 - p. 22)