OBJETIVOS DO BLOGUE

Olá, bem-vindo ao blog "Chaves para a Sabedoria". A página objetiva compartilhar mensagens que venham a auxiliar o ser humano na sua caminhada espiritual. Os escritos contém informações que visam fornecer elementos para expandir o conhecimento individual, mostrando a visão de mestres e sábios, cada um com a sua verdade e experiência. Salientando que a busca pela verdade é feita mediante experiências próprias, servindo as publicações para reflexões e como norte e inspiração na busca da Bem-aventurança. O blog será atualizado com postagens de textos extraídos de obras sobre o tema proposto. Não defendemos nenhuma religião em especial, mas, sim, a religiosidade e a evolução do homem pela espiritualidade. A página é de todos, naveguem a vontade. Paz, luz, amor e sabedoria.

Osmar Lima de Amorim


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terça-feira, 6 de julho de 2021

A LIÇÃO DO SOFRIMENTO

"O Sofrimento nada mais é do que o outro lado do prazer.

Segundo Buda, a primeira das quatro grandes verdades é: 'a vida é sofrimento.' Esta afirmação nos ajuda a entender que a dor não é exclusividade nossa, mas parte da vida de todos. Por vezes aprendemos sobre ela da maneira mais dolorosa. Importante, porém, é não ficarmos passivos frente ao sofrimento e buscar a lição e o aprendizado que ele nos pode oferecer.

A morte é presença permanente na vida de todos nós. Quando acompanhamos o enterro de alguém de quem gostamos, levando tristeza no coração, convém nos lembrarmos de que quanto maior for o número de pessoas que amamos, mais ocasiões como essas iremos viver durante nossa vida. Se conquistarmos a felicidade de ter muitos amigos, muitas vezes iremos comparecer a um cemitério para deles nos despedirmos. Mas, por outro lado, muitas vezes participaremos de festas e comemorações e nascimentos e aniversários; e alegrias e tristezas, junto com as pessoas que amamos, são as maiores riquezas que podemos usufruir. O sofrimento nada mais é do que o outro lado do prazer.

Não ficar passivo frente ao sofrimento significa superar dores e aflições e ajudar os outros a também fazê-lo. Certamente o futuro ainda nos reservará festas e comemorações. Mas alguns acontecimentos estão acima de nosso entendimento. Devemos aceitar com serenidade o que não pode ser mudado e usar nossa energia para melhorar o que estiver ao nosso alcance. O tempo alivia o sofrimento."

(Luiz Alberto Py - Olhar Acima do Horizonte - Ed. Rocco Ltda., Rio de Janeiro, 2002 - p. 83/84)


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O TEMPO NÃO TRAZ SOLUÇÃO

Resultado de imagem para O TEMPO"Todas as religiões têm afirmado que o tempo é necessário, o tempo psicológico do qual estamos falando. O céu é muito longe e só se consegue chegar até ele mediante o processo gradual da evolução, a supressão, o crescimento ou a identificação com um objeto, com algo superior. Nossa questão é se é possível ficar livre do medo imediatamente. Do contrário, o medo produz desordem; o tempo psicológico invariavelmente traz consigo uma extraordinária desordem.

Estou questionando toda a ideia da evolução, não do ser físico, mas do pensamento, que tem se identificado com uma forma particular de existência no tempo. O cérebro tem obviamente evoluído para chegar a esse estágio, e pode evoluir ainda mais, se expandir ainda mais. Mas como ser humano tenho vivido há quarenta ou cinquenta anos em um mundo composto de todos os tipos de teorias, conflitos e conceitos, em uma sociedade em que a ambição, a inveja e a competição têm produzido guerras. Sou uma parte de tudo isso. Para um homem que está triste, não tem significado olhar para o tempo em busca de uma solução, evoluir lentamente para os próximos dois milhões de anos como um ser humano. Constituídos como nós somos, será possível nos livrarmos do medo e do tempo psicológico? O tempo físico precisa existir; não podemos nos livrar disso. A questão é se o tempo psicológico pode produzir não apenas ordem dentro do indivíduo, mas também ordem social. Somos parte da sociedade; não somos separados dela. Onde há ordem em um ser humano, haverá inevitavelmente ordem social externa."

(Krishnamurti - O Livro da Vida - Ed. Planeta do Brasil Ltda., São Paulo, 2016 - p. 312)


quarta-feira, 11 de abril de 2018

SEIS REGRAS PARA O AUTOCONTROLE (1ª PARTE)

"Revisitando as colinas do tempo, quase todos nós podemos ver uma sepultura aqui ou ali, onde enterramos uma boa parte de nós mesmos, após uma erupção vulcânica. E quando afastamos o capinzal, lá está o epitáfio: 'Morreu de um ataque de raiva; foi levado por seu próprio temperamento.' Para que isso não mais nos aconteça, aqui estão seis regras para manter o autocontrole.

1. Aquele que perde a calma sempre perde. Você sempre perde mais do que ganha quando se aborrece. Três minutos de raiva minam suas forças mais do que oito horas de trabalho. É uma enorme tensão sobre seu corpo. Quando você se aborrece, o sangue é impelido para os principais músculos dos braços e das pernas. Assim, você tem mais força física, mas o cérebro, por falta do pleno suprimento de sangue, tem sua eficácia diminuída. É por isso que você diz e faz coisas bizarras. De modo semelhante, você perde o respeito daqueles que testemunham a explosão. A gentileza é uma vencedora, e é aliada da paz no mundo.

2. Conheça seus sinais de perigo. Geralmente existem nuvens no seu céu particular para anunciar a tempestade que se aproxima. Estude-se para descobrir que estados de humor e que momentos são críticos para você.
   Talvez essas tendências andem em círculos. Há pessoas, por exemplo, que passam por um período de mau-humor a cada vinte dias, com rigorosa pontualidade. Tomando cuidados especiais, desviando os pensamentos ou viajando, elas conseguem evitá-los.
   Os momentos mais perigosos podem ser aqueles que se seguem a algum período excitante ou romântico. Outros ficam nervosos quando estão cansados. Mas, mesmo que a sua raiva não siga padrão algum, ela geralmente agita uma bandeira antes de chegar.

3. Reserve um momento para se acalmar. Lembre-se de que os grandes são grandes porque esperam mais cinco minutos. Certo dia íamos de carro em uma avenida onde as pessoas se zangam se você for lento. O motorista, um amigo meu, estava passando por um período difícil. Um bobo alegre, desses que gostam de voar no trânsito, estava a não mais de dez centímetros atrás de nós durante uma subida, guiando um caminhão velho. Ele fazia esforços visíveis para ultrapassar. Finalmente, buzinando a pleno vapor, ele nos ultrapassou tão próximo que por pouco não nos levou a lateral.
    Para piorar as coisas, o jovem pôs a cabeça para fora e gritou algo impublicável. Eu sei o que eu teria feito. Você também, talvez. Mas o meu amigo, cuidadosamente, parou o veículo junto ao meio-fio e permeneceu sentado. Depois de três minutos, virou-se para mim e disse: 'Quando fico aborrecido assim, simplesmente paro o que estou fazendo e espero até passar.' Isso é o que mamãe queria dizer com 'consulte o travesseiro, filho'... (...)"

(Charlie W. Shedd - Seis regras para o autocontrole - Revista Sophia, Ano 7, nº 25 - p. 45)


segunda-feira, 9 de abril de 2018

A CRÍTICA (PARTE FINAL)

"(...) Nós também devemos desenvolver a faculdade crítica; mas para criticar-nos a nós mesmos, e não aos outros.  

Toda questão tem sempre dois lados, geralmente mais do que dois. Kritein significa julgar; por conseguinte, a crítica será inútil, e só poderá fazer mal, se não for absolutamente serena e judiciosa. Não é um ataque selvagem ao oponente, mas um pesar plácido, sem preconceitos, de razões pró e contra determinada opinião ou curso de ação. Podemos decidir de um jeito, mas precisamos reconhecer que outro homem, de intelecto igual, pode dar ênfase a outro aspecto da questão e, por conseguinte, decidir de maneira totalmente diversa. E, todavia, ao decidir dessa feição, ele pode ser tão bom, tão justo e tão honesto quanto nós.

Entretanto, poucos o reconhecem; poucos protestantes cabeçudos acreditam realmente que os católicos sejam homens bons; poucos radicais convictos e apaixonados acreditam realmente que um velho fidalgo Tory possa ser tão bom e tão sincero quanto eles, e tenta honestamente fazer o que julga ser sua obrigação!

Quando um homem toma uma decisão diferente da nossa, não precisamos fingir concordar com ele, mas precisamos creditar-lhe boas intenções. Uma das piores características da vida moderna é a sua ansiosa presteza para acreditar no mal - o seu hábito de procurar, deliberadamente, a pior interpretação concebível que se pode dar ao que quer que seja. E essa atitude é péssima quando adotada em relação aos que nos ajudaram, a quem devemos agradecimentos pelos conhecimentos ou inspiração recebidos. Lembremo-nos das palavras do Mestre: 'A ingratidão não é um dos nossos vícios.' É sempre um erro entregar-nos loucamente à crítica aos que sabem mais do que nós; é mais correto esperar e repensar o assunto, esperar e ver o que o futuro nos trará. Apliquemos a prova do tempo e do resultado: 'Pelos frutos os conhecereis.' Tomemos por regra pensar o melhor de cada homem; façamos o nosso trabalho e deixemos os outros em liberdade para fazerem o seu."

(C. W. Leadbeater - A Vida Interior - Ed. Pensamento, São Paulo, 1999 - p. 97/98)


sábado, 31 de março de 2018

NOSSA NATUREZA É ILIMITADA (PARTE FINAL)

"(...) O pensamento racional e o tempo linear são apenas equipamentos de montanhismo que nos possibilitam escalar montanhas cada vez mais altas e descobrir horizontes cada vez mais distantes. São como a jangada com a qual cruzamos rios cada vez mais largos, ou o navio no qual nos aproximamos de praias desconhecidas. Mas quando compreendemos que esses horizontes estão apenas relativamente mais distantes, voltamo-nos para outra direção. Abandonamos nosso equipamento de montanhismo, nossa canoa ou navio - o pensamento e a noção de tempo linear -, e de repente estamos mesmo que apenas por um momento, no absolutamente novo.

Os horizontes apenas aparentemente novos, que estão sempre longe, mas jamais são alcançados, encontram-se no mundo do pensamento. Algo semelhante acontece com a pessoa religiosa em busca daquilo que ela chama de Deus.

O religioso pode encontrar seu Deus num objeto, uma estátua da Virgem ou um quadro de Krishna. Por que não? Com o tempo, no entanto, isso não vai mais satisfazê-lo. Ele aprende a buscar atrás ou além da imagem. Então, imagina um Deus que não é físico, mas ainda é limitado; é o seu Deus, em oposição a outros deuses de outras crenças. 

Pode ser então que ele descubra que Deus, para ser Deus, deve ser de todos os homens, adorado em todas as religiões. Essa descoberta pode levar a dificuldades. É preciso coragem para deixar o rebanho. 

Posteriormente ocorre um insight, talvez a princípio como um conceito teórico: Deus não está fora, mas dentro de sua criação, em toda parte, na terra, no céu, na natureza, em todos os seres animais e humanos, até mesmo naqueles que são capazes de cometer crimes. Não apenas está Ele neles, mas eles são Deus. Tudo é Deus, tudo é divino. 

Talvez não gostemos da palavra Deus. Essa palavra está ligada a tantas imagens que tudo que podemos fazer é rejeitá-la. Talvez seja melhor dizer que uma vida simples e sagrada está em todas as coisas e em todos os seres - ou é todas as coisas e todos os seres."

(Mary Anderson - Para alcançar um novo dia - Revista Sophia, Ano 7, nº 26 - p. 28/29)


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

ESTA VIDA: O BARDO NATURAL

"Vamos explorar o primeiro dos Quatro Bardos, o bardo natural desta vida, e todas as suas muitas implicações; (...) O bardo natural desta vida compreende todo o período da nossa vida que vai do nascimento à morte. Seus ensinamentos deixam claro para nós porque esse bardo é uma oportunidade tão preciosa, o que realmente significa ser um ser humano e o que há de mais importante - o único essencial - a ser feito com a dádiva desta vida humana. 

Os mestres nos dizem que há um aspecto das nossas mentes que é seu terreno fundamental, um estado chamado de 'a base da mente ordinária'. Longchenpa, o destacado mestre tibetano do século XIV, descreve-o deste modo: 'É um estado não iluminado e neutro que pertence à categoria da mente e dos eventos mentais, e que se tornou a base ou fundação de todos os carmas e 'engramas' do samsara e do nirvana'.¹ Ele funciona como um armazém em que são estocados como sementes todas as impressões das ações passadas causadas por nossas emoções negativas. Quando surgem as condições propícias, elas germinam e manifestam-se como circunstâncias e situações da nossa vida.

Imagine essa base da mente ordinária como um banco no qual o carma é depositado na forma de impressões e tendências habituais. Se temos o hábito de pensar seguindo um padrão característico, positivo ou negativo, então essas tendências serão acionadas e provocadas muito facilmente, repetindo-se de maneira contínua e recorrente. Com essa repetição constante, nossas inclinações e hábitos entrincheiram-se cada vez mais e persistem, acumulando mais e mais poder, mesmo quando estamos dormindo. É dessa forma que chegam a determinar nossa vida, nossa morte e nosso renascimento.

Sempre nos perguntamos: 'Como será quando eu morrer?' A resposta a isso é que seja qual for o estado da mente que temos agora, seja lá qual for o tipo de pessoa que somos agora, assim seremos no momento da morte, se não mudarmos. Por isso é de importância tão absoluta usar esta vida para purificar nosso fluxo mental e, por decorrência, nosso ser e nosso caráter fundamentais, enquanto podemos."

¹ Tulku Thondup, Buddha Mind (Ithaca, Nova York: Snow Lion, 989), 211.

(Sogyal Rinpoche - O Livro Tibetano do Viver e do Morrer - Ed. Talento/Ed. Palas Athena, 1999 - p. 152/153

domingo, 31 de dezembro de 2017

A MAGIA DO FINAL DE ANO

"O tempo é circular. Tudo o que ocorre ao longo dele é cíclico. Cada final traz um novo começo, e o modo como terminamos um ano das nossas vidas ajuda a definir como será, para nós, o ano seguinte. 

Um breve momento é resultado, e semente, de processos imensamente longos. Segundo a filosofia esotérica, também cada ano que passa é um resumo de toda a nossa vida. O final de cada ciclo é oportuno para refletir sobre nossas vitórias e dificuldades, fazer um balanço – e renovar a decisão de viver de maneira sábia. 

As quatro estações do ano correspondem às quatro grandes etapas de uma vida humana. A segunda metade do inverno é a infância, que prepara a primavera da juventude. Por enquanto, tudo parece ajudar o nosso desenvolvimento pessoal: somos protegidos e  educados, e as tendências da natureza conspiram a nosso favor.  Na primavera e no verão, que correspondem ao período que vai da juventude à meia-idade, ocorrem os grandes desafios e as principais realizações. Depois vem o outono, a primeira parte da velhice, quando é hora de recolher-se ao fundamental e de substituir com a sabedoria acumulada a  força que falha cada dia mais. 

O ciclo termina com a primeira metade do inverno, a  parte final da velhice. Esta é a época da grande renúncia, da travessia de volta para o todo universal de onde um dia viemos, e de onde no futuro poderemos emergir novamente  para  outra forma de existência, sem nada lembrar  da encarnação anterior.

O que permite distinguir cada uma das quatro estações é o ciclo anual da distribuição da energia solar. O sol é a grande fonte de vida material e espiritual em nosso planeta. O futuro de cada força vital depende diretamente da sua relação com ele. Muito mais que uma estrela física, o sol é na verdade o logos solar, a fonte espiritual de tudo o que ocorre em cada um dos seus planetas. Assim, o ciclo da luz solar em nosso planeta constitui um mapa da longa jornada de cada alma humana, com seus períodos de expansão e retração, crescimento e decadência, morte e ressurreição."

(Carlos Cardoso Aveline - A Magia do Final de Ano)


terça-feira, 17 de outubro de 2017

O PENSADOR PRECISA ENTENDER A SI MESMO (2ª PARTE)

"(...) Os pensamentos são o próprio pensador; eles não estão separados. O pensador se separou dos pensamentos para se proteger; assim, pode modificar os pensamentos de acordo com as circunstâncias, mantendo-se afastado. Esse é um dos truques da mente: separar o pensador dos pensamentos para se dedicar a transformá-los.

Tudo isso é um engano, uma ilusão, um jeito esperto do pensador se proteger, como que para assegurar sua própria permanência, enquanto os pensamentos são impermanentes. Assim, o ego se perpetua. Mas o 'eu' não é permanente, seja o eu inferior ou o eu superior. Ambos ainda estão dentro do campo da memória e do tempo.

A razão para dar tanta importância à psicologia é o fato da mente ser a causa de todas as ações. Sem compreender isso, não há sentido em fazer reformas, desperdiçar o tempo, pôr ordem em ações superficiais. Temos agido assim por muitas gerações, mas só produzimos confusão, loucura e miséria no mundo. 

Por isso, temos que ir até a raiz de todos os problemas da existência e da consciência: o eu, o pensador. Sem compreender o pensador e suas atividades, reformas sociais superficiais não têm significado - não para o homem verdadeiramente sério e zeloso. É importante que cada um de nós descubra isso - seja no plano superficial, no exterior, ou no plano fundamental e interno. (...)"

(J. Krishnamurti - O pensador precisa entender a si mesmo - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 24/25)


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

IMAGEM DA ETERNIDADE

"A Teoria da Relatividade surgiu depois da época de Helena Blavatsky. Mas ela já considerava o tempo multidimensional, com muitos aspectos que dependem da nossa observação. Nossas ideias sobre o tempo, originadas das nossas sensações, estão 'inelutavelmente vinculadas à relatividade do conhecimento humano.' e vão se desvanecer quando evoluirmos ao ponto de ver além da existência fenomênica.

Segundo Blavatsky, a duração ilimitada, ou atemporalidade, além da relatividade, é o 'tempo incondicionalmente eterno e universal', o númeno do tempo, não condicionado pelos fenômenos que surgem e desaparecem periodicamente. A duração é 'eterna e, portanto, imóvel, sem começo, sem fim, além do tempo dividido e além do espaço'.

É esse aspecto da realidade que produz o tempo como 'a imagem móvel da eternidade', nas palavras de Platão. Os ciclos de manifestação ocorrem dentro da duração infinita, à medida que o atemporal dá origem ao tempo. Assim como ocorre com o espaço e o movimento, nosso mundo familiar de tempo 'dividido' é gerado a partir desse reino indiviso e informe.

A duração abarca tudo simultaneamente, enquanto o tempo que experimentamos precisa se adaptar à visão sequencial: uma coisa de cada vez. É difícil imaginar a realidade como um todo presente simultaneamente na duração, porque nossa mente é parte do processo do tempo. A atemporalidade nos escapa.

Blavatsky explica que aquilo que é visto em um momento específico é a soma de todas as suas diferentes condições, desde o seu surgimento em forma material até o seu desaparecimento da Terra. Ela compara esse somatório com uma barra de metal lançada ao mar. O momento presente de uma pessoa é representado pela seção transversal da barra, no ponto em que o oceano e o ar se encontram. Ninguém diria que a barra surgiu no momento em que deixou o ar ou que desapareceu quanto entrou na água. Da mesma forma, surgimos do passado para mergulhar no futuro, apresentando, momentaneamente, uma faceta de nós mesmos no presente."

(Tempo e atemporalidade - Do livro Sabedoria Antiga e Visão Moderna, Shirleu Nicholson, Ed. Teosófica - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 17)
www.revistasophia.com.br


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UMA PROPRIEDADE DA MENTE (PARTE FINAL)

"(...) As crianças ficam à vontade com o tempo não linear; ao brincar, parecem abolir o relógio. Nós também podemos modificar nossas sensações sobre  o tempo e torná-lo mais lento. Com isso, os processos biológicos também ficam mais lentos e saudáveis. A 'doença da pressa' pode ser revertida através das chamadas 'terapias do tempo', de acordo com Dossey. Isso pode ser feito por meio de técnicas como biofeedback, meditação, hipnose, jogos criativos e visualização de fantasias.

Nessas experiências, passado, presente e futuro se fundem, o que libera as pressões do tempo e quebra momentaneamente o seu domínio sobre nossa vida. Essas práticas também tendem a modificar nosso conceito linear do tempo como algo que avança inexoravelmente para a frente. Podemos aprender a sair dessa prisão e viver um 'presente em fluxo eterno', sentindo a atemporalidade da duração.

Quando não estamos mais dominados pelo tempo linear, vivemos em harmonia os aspectos cíclicos do tempo. Para as pessoas que vivem mais próximas à natureza, os ciclos das estações, do dia e da noite, as fases da lua, o plantio e a colheita - e nossos ciclos internos, como vigília e sono, respiração, menstruação - desempenham um papel importante. O tempo, para essas pessoas, é moldado por eventos recorrentes; a vida se ordena de acordo com ritmos naturais, em vez da segmentação artificial dos relógios.

Para essas pessoas, o tempo é um processo dinâmico e interminável, que retorna continuamente - uma espiral, em vez de um rio. O ritmo do viver representa a preservação do princípio dos ciclos, que a teosofia e a filosofia oriental traduzem como uma espécie de movimento circular por toda a realidade manifestada. Viver em harmonia com os ciclos é estar em harmonia com o universo."

(Tempo e atemporalidade - Do livro Sabedoria Antiga e Visão Moderna, Shirleu Nicholson, Ed. Teosófica - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 16/17)


terça-feira, 26 de setembro de 2017

UMA PROPRIEDADE DA MENTE (1ª PARTE)

"Helena Blavatsky, assim como muitos filósofos, viu que o tempo, como sucessão de eventos, é tanto uma propriedade da nossa mente quanto uma parte da realidade. Nós percebemos de forma seriada e classificamos como passado, presente e futuro; os eventos, entretanto, simplesmente são.

O tempo é uma generalização, um conceito que formulamos a partir da experiência. Depois atribuímos a ele uma existência separada da nossa vivência dos eventos. Blavatsky, contrariando a noção de que o tempo flui e nós permanecemos parados, afirma que 'o tempo é apenas uma ilusão produzida pelos sucessivos estados da nossa consciência, à medida que atravessamos a duração eterna'.

A forte tendência de ordenar as coisas em sequência atua sobre a nossa percepção do mundo. O sentido de tempo linear fragmenta o panorama ininterrupto das mudanças interconectadas da natureza, percebido claramente pelos índios hopi.

Quando sonhamos ou mergulhamos em pensamentos o tempo pode se expandir, de modo que minutos ou segundos parecem horas, ou horas passam num relance. A sensação de passagem rápida ou lenta do tempo pode resultar de fatores físicos, como temperatura corporal, temperatura do ar ou influência de café, chá ou álcool, ou ainda fatores psicológicos como tédio ou interesse. É comum sentir que a semana de trabalho se arrasta, enquanto os fins de semana 'passam voando'.

A 'progressão ordenada, militar, do tempo medido' é muito diferente do 'tempo ilimitado da mente', segundo as expressões de Bérgson. Para alguns o tempo normalmente parece fluir mais lentamente do que para outros. Ao longo do dia, nossa percepção do passar do tempo também muda. Há momentos em que ele é uma corrente que se desloca montanha abaixo; depois, é como um rio sereno na planície. Nenhum dos padrões está 'correto'; o tempo não possui velocidade absoluta. Mas a pressa excessiva pode ser prejudicial e o ritmo lento pode ter efeitos curativos sobre nossa saúde. (...)"

(Tempo e atemporalidadeDo livro Sabedoria Antiga e Visão Moderna, Shirleu Nicholson, Ed. Teosófica - Revista Sophia, Ano 2, nº 7 - p. 16)


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

LIÇÕES A SEREM APRENDIDAS ATRAVÉS DO CONHECIMENTO DO KARMA (2ª PARTE)

"(...) 3. A Autoconfiança. Assim como, no passado, fi­zemos de nós o que somos hoje, também pelo que agora fizermos nosso futuro será determinado. O conhecimen­to e a lembrança desse fato e de que a glória do futuro é ilimitada devem, com o tempo, dar-nos grande autocon­fiança, e afastará aquela tendência a apelar para o auxí­lio externo, que, na verdade, em nada auxilia. Thoreau disse: 'Não conheço fato mais encorajador do que a in­discutível capacidade do homem para elevar sua vida, através de um empenho consciente.' E as derradeiras palavras de Buda foram: 'Trabalhai com diligência por vossa salvação!' No Dhammapada diz-se, também, que 'pela própria pessoa o mal é feito, pela própria pessoa vem o sofrimento; pela própria pessoa o mal é anulado, pela própria pessoa vem a purificação. Pureza e impu­reza pertencem à própria pessoa, e ninguém pode puri­ficar outrem'.

4. A Restrição. Naturalmente, se compreendermos que o mal que fazemos se voltará contra nós, saberemos ser muito cuidadosos para não fazer ou dizer coisa algu­ma que não seja boa, pura e verdadeira. O conhecimen­to do Karma evitará que façamos coisas erradas, por amor dos outros como de nós próprios. Fiscalizemos os pensa­mentos; o pecado é feito por um pensamento positivo, mesmo que esse pensamento não seja levado à ação, por­que os pensamentos são tão reais no mundo mental co­mo as ações o são no mundo material. Jesus disse: 'Quem olhar para uma mulher com o desejo de luxúria, já co­mete adultério com ela, em seu coração.' (Mat., v, 28.) O envio constante de bons pensamentos para outros é de importância muito grande, fazendo-se a melhor das ora­ções — mas ponhamos intenção, energia e vontade neles. Outra coisa a ser aprendida é que devemos combater todo pensamento errado que nos vier à mente, através do po­der do Eu Superior.

5. A Responsabilidade. O fato de haver unidade es­piritual na Raça Humana, já que ela, em sua raiz, é uma apenas, traz, também, o fato da nossa responsabilidade uns para com os outros. No início do Capítulo XIII, dis­semos o quanto somos interdependentes uns dos outros, e como se torna dever nosso, para com a Humanidade em geral, abandonar o Mal e praticar o Bem.

6. O Poder. Quanto mais fizermos da Doutrina do Karma uma parte de nossas vidas, mais poder ganhare­mos, não só para dominar o Mal, mas para dirigir, em grande extensão, o nosso futuro, e ajudar com maior efi­cácia o nosso próximo. Isso se dá porque, tornando-nos autoconfiantes, atraímos força do Eu Superior interno. Por aquele Ser Divino interno nossa vida deve ser guiada e, com a Sua força, dominamos as limitações, destruí­mos os grilhões que nos mantêm fora do Nirvana, e nos tornamos Auxiliares Conscientes da Humanidade. (...)"

(Irmão Atisha - A Doutrina do Karma - Ed. Pensamento, São Paulo - p. 39/40)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

AS INTELIGÊNCIAS KÁRMICAS

"O Karma não é uma lei cega, nem, de forma alguma, sem endereço. Há grandes inteligências à sua retaguarda, e assim deve ser, especialmente para a direção de suas di­versas correntes, e para a orientação quanto ao tempo, a forma e o lugar do renascimento. Todas as Mitologias têm algo a dizer a esse respeito. Os gregos foram mestres no personalizar ou tornar de certa maneira concretas as maravilhosas e algumas vezes deslumbrantes abstrações dos Sábios e Filósofos do Oriente. O Oriente entrega-se a infinitas e ilimitadas abstrações; o Ocidente personali­za. Assim, por exemplo, o Karma do Oriente é transfor­mado, nos ensinamentos do Ocidente, na Deusa Nêmesis, ou Fatalismo, com os Três Destinos e as Três Fúrias. Outro exemplo: a imortalidade e a persistência dos pen­samentos e ações, como são ensinados no Oriente, pas­sam a ser, no Ocidente, a doutrina do Anjo Registrador, que anota nossos atos, bons ou maus.

Vamos lançar os olhos para as personificações das Inteligências Kármicas. Os Governantes Kármicos são, realmente, Quádruplos, mas sua quádrupla natureza às vezes esconde-se sob o número três. No Apocalipse, ve­mos a presença de Quatro Anjos dos Quatro Quartos da Terra. Estacionados simbolicamente nos quatro pontos cardeais, mostram-lhes que são dirigentes dos assuntos mundanos. E, em Ezequiel, temos uma visão gráfica das Quatro Criaturas Vivas, cuja 'voz era a do Todo-Poderoso'. Os escandinavos acreditam nos Três Norns ou Des­tinos (Urd, Verdandi e Skuld). O pai deles completa os Quatro. Os gregos tiveram maior sucesso na personifica­ção dos Deuses Kármicos. Eles são, na verdade, inigualá­veis nessa arte. O quádruplo Poder de Karma está repre­sentado em Nêmesis e nos Três Destinos. Nêmesis é às vezes chamada de Adrastia (Justiça) e às vezes de Necess­itas (Fatalismo) e pelos teósofos neoplatônicos também é designada como 'Natureza', e, ainda, como o 'Divino Héracles' ou Hércules. Nêmesis é o melhor nome, sendo Ela a recompensadora do Bem e a castigadora do Mal; mas há uma grande verdade em cada um dos outros no­mes, pois trazem à tona alguma característica do Karma: Ela é Justa (Adrastia), Fatal (Necessitas), o Caminho de toda a Natureza (Natureza) e é forte e poderosa (Héra­cles). Como castigadora do Mal, Ela usa as Três Fúrias — Tisffone, Megera e Alecto. Quando recompensa o Bem, as Fúrias tornam-se as Três Eumênides (As Benevolentes). Mas os dirigentes da Lei Kármica, além de Nêmesis, fo­ram os Três Destinos: Cloto, que preside ao nascimento; Láquesis, que tece o fio da vida e Átropos, que corta o fio da vida com a sua tesoura. Ao que se supõe, todo o Bem e todo o Mal vêm delas, e são consideradas como inexoráveis, mas, ainda assim, dignas de respeito e reve­rência.

Na tradição secreta que a Teosofia tornou conhecida, esses Poderes são chamados o Quádruplo Lipika (literal­mente 'Escribas', ou 'Registradores') que são os regula­dores ou assessores do destino que um homem criou para si próprio. (Ver Estâncias de Dzyan, traduzidas por Hele­na P. Blavatsky.) Esses Quatro Santos estão dentro, fora e atrás da Lei Kármica e, por seu intermédio, o Senhor Supremo controla as operações do homem e da Natureza, karmicamente."

(Irmão Atisha - A Doutrina do Karma - Ed. Pensamento, São Paulo - p. 35


quinta-feira, 22 de junho de 2017

PURIFICAÇÃO (2ª PARTE)

"(...) A marcha se nos afigura muito lenta porque eles não veem seu ponto de chegada, a sua meta, e não percebem em que direção estão viajando. Observando alguns caminhantes, vemos que estão sempre se desviando para os lados, atraídos para cá e para lá, sem qualquer propósito em seu caminhar. Não andam diretamente para a frente, atentos ao que fazem, mas perambulam, como crianças, correndo atrás de uma flor ali, tentando apanhar uma borboleta acolá. Assim, temos a impressão de que todo seu tempo é desperdiçado, e apenas um pequeno avanço chega a ser consquistado quando a noite cai sobre eles e o dia de marcha termina. 

Não parece sequer que o próprio progresso intelectual, lento como também é, torne o passo mais rápido. Quando observamos aqueles cujo intelecto é escassamente desenvolvido, eles dão a impressão de que, depois de cada dia vivido, mergulham no sono e dormem quase que no mesmo lugar que ocuparam na noite anterior. E quando voltamos os olhos para aqueles que se mostram mais altamente evoluídos, no que se refere ao intelecto, também esses estão viajando devagar, muito devagar, e a cada dia de vida parecem fazer pequeno progresso. Olhando assim para eles, nosso coração sente-se fatigado com aquela subida, e ficamos a pensar por que não erguem os olhos e entendem em que direção seu caminho os está levando. 

Agora, o Pátio Externo, que alguns dos caminhantes da vanguarda estão alcançando, aquele Pátio Externo do Templo, dá a impressão de que pode ser atingido não apenas pelo caminho circulante, volta por volta, tão longo em torno da montanha, mas também por caminhos mais curtos que não a circundam, mas que podem ser escalados diretamente pelos flancos, se o coração do viajante for corajoso e suas pernas se mostrarem resistentes. Ao tentar ver como os homens encontram um caminho mais rápido para o Pátio Externo do que aquele que vem sendo trilhado por seus companheiros de viagem, parece que percebemos que o primeiro passo é dado para fora dessa longa espiral quando alguma Alma, que talvez por milênios tenha estado viajando volta por volta, compreende, pela primeira vez, o propósito da viagem, e vislumbra, por um momento, uma cintilação vinda do Templo, lá do ápice. Porque aquele Templo branco envia raios de luz sobre os flancos da montanha. De vez em quando um viajante levanta os olhos, afastando-os das flores, das pedrinhas e das borboletas que estão pelo caminho, e aquele cintilação atrai o seu olhar. Olha para cima, para o Templo, e, por um momento, ele o vê. (...)"

(Annie Besant - Do Recinto Externo ao Santuário Interno - Ed. Pensamento, São Paulo 1995 - p. 9/11)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

PURIFICAÇÃO (1ª PARTE)

"Se nos fosse possível colocar-nos, em pensamento, num centro do espaço, do qual pudéssemos ver o curso da evolução, e estudar a história da nossa cadeia de mundos, tal como podem ser vistos pela imaginação mais do que pelo aspecto que apresentam, poderíamos interpretar o todo num quadro. Vejo uma grande montanha situada no espaço, com um caminho que vai girando em torno dela até atingir seu ápice. As voltas que esse caminho dá são sete, e em cada volta há sete estações onde os peregrinos ficam durante algum tempo. Dentro dessas estações eles têm de subir, volta por volta. Quando traçamos o caminho que sobe por aquela trilha em espiral, vemos que ele termina no topo da montanha, e leva a um majestoso Templo, como que feito de mármore, de uma brancura radiante, e que ali se ergue, cintilando contra o azul etéreo.

Esse Templo é a meta da peregrinação, e os que estão no seu interior terminaram o seu percurso - no que se refere à montanha - e ali permanecem apenas para auxiliar os que ainda estão subindo. Se observarmos o Templo mais atentamente, constataremos, ao tentar ver a sua construção, que ele tem, ao centro, um Santo dos Santos. Em torno desse centro estão os quatro Pátios, circundando o Santo dos Santos como círculos concêntricos. Todos estão dentro do Templo.

Uma parede separa cada Pátio do que lhe é contíguo, e para passar de um Pátio para o outro o caminhante deve atravessar uma porta, apenas uma em cada parede circundante. Assim, todos os que alcançarem o centro terão de passar por aquelas quatro portas, uma por uma. Fora do Templo ainda há outro recinto fechado - o Pátio externo - e esse Pátio acolhe muitos peregrinos, mais do que os que estão dentro do Templo propriamente dito. 

Olhando para o Templo e para os Pátios, e para o caminho que sobe em espiral pela montanha, vemos esse quadro da evolução humana e a trilha ao longo da qual a raça está caminhando, bem como o Templo, que é a sua meta. Ao longo daquele caminho que dá voltas à montanha, vasta massa de seres humanos vai de fato subindo, mas subindo vagarosamente, passo por passo. Às vezes, tem-se a impressão de que cada passo para a frente corresponde a um passo para trás, e embora a tendência de toda aquela massa seja para subir, a ascensão é tão lenta que os passos mal se fazem perceptíveis. Essa evolução eônica da raça, subindo sempre, parece tão lenta, extenuante e dolorosa que nos perguntamos como podem os peregrino ter ânimo para subir durante tanto tempo. Dando voltas à montanha, milhões de anos se passam, e na marcha de milhões de anos o peregrino segue. Enquanto ele caminha por ali durante esses milhões de anos, uma infindável sucessão de vidas parece passar, todas despendidas na subida. Cansamo-nos só de observar as imensas multidões subindo tão lentamente, caminhando, volta por volta, na escalada daquela estrada em espiral. Observando-as, indagamo-nos: 'Por que sobem com tanto vagar? Por que esses milhões de homens empreendem uma viagem tão longa? Por que se esforçam para alcançar aquele Templo situado lá no ápice?' (...)"

(Annie Besant - Do Recinto Externo ao Santuário Interno - Ed. Pensamento, São Paulo 1995 - p. 7/9)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

COMO EU ENCARO A RAIVA?

"Obviamente, eu encaro a raiva como um observador com raiva. Eu digo: 'Estou com raiva'. No momento da raiva não há 'eu', ele vem imediatamente depois, o que significa tempo. Consigo encarar o fato sem o fator do tempo, que é o pensamento, a palavra? Isso acontece quando há o olhar sem o observador. Veja aonde isso me levou. Agora começo a perceber uma maneira de olhar - a percepção sem opinião, conclusão, condenação, julgamento. Por isso, percebo que pode existir o 'ver' sem o pensamento, que é a palavra. Então, a mente está além dos aglomerados de ideias, do conflito da dualidade e de todo o resto. Desse modo, como posso encarar o medo sem que ele seja um fato isolado?

Se você isolar um fato que não abriu a porta para todo o universo da mente, então vamos voltar ao fato e começar de novo, considerando outro fato para que você mesmo comece a ver como a mente é extraordinária, para que você tenha a chave, possa abrir a porta e possa irromper dentro dela.

...A mera consideração de um medo - de morte, do vizinho, do seu cônjuge dominador, você conhece toda a questão da dominação - irá lhe abrir a porta? Isso é tudo o que importa - não como se livrar dele -, porque no momento em que você abre a porta, o medo é completamente varrido dali. a mente é o resultado do tempo, e o tempo é a palavra - como é extraordinário pensar nisso! Tempo é pensamento. Acredita-se que ele gera medo, que ele gera o medo da morte. E houve uma época em que se acreditava que ele tinha em suas mãos todas as complexidades e as sutilezas do medo."

(Krishnamurti - O Livro da Vida - Ed. Planeta do Brasil Ltda., São Paulo, 2016 - p. 109)


domingo, 28 de maio de 2017

A AUTÊNTICA ESPIRITUALIDADE (PARTE FINAL)

"(...) Podemos também abordar o tema da espiritualidade considerando a polaridade fundamental da vida, que se encontra nos ensinamentos da sabedoria e é Purusha-Prakriti, ou espírito-matéria. Não estamos divididos em espírito e matéria, mas somos espírito-matéria unidos. O polo espiritual de nossa natureza revela-se gradualmente à medida que evoluímos, como uma flor que se abre. 

Entramos agora no reino da renovação. O apóstolo Paulo disse:'Não permiti que o presente empurre-vos para dentro de seu molde. Em vez disso, transformai-vos pela renovação de vossas mentes.' Ele aludia àquela renovação mental que nasce naturalmente quando nosso condicionamento é posto de lado. Uma renovação assim não pode surgir quando a mente está cheia de coisas terrenas; ocorre quando entramos na quietude não terrena. Quando silenciamos, mesmo por um curto espaço de tempo, os espaços dentro dos recessos mais elevados de nossa mente revelam-se inevitavelmente.

Associada a isso há a perda do senso do espaço físico, um tipo de leveza. Os espaços internos de nossa consciência são desatravancados e demonstram grande vitalidade. Estando mais próximos do polo espiritual de nossa natureza, eles contêm uma energia que consegue filtrar-se através de toda a nossa consciência do dia a dia, ajudando a expressar o que há de melhor em nós, da latência à potência. Os momentos de silêncio mental podem trazer clareza e liberação de energia, ajudando-nos a navegar mais facilmente através da vida, assim como de súbito o relâmpago clareia o céu escuro."

(Linda Oliveira - A renovação da sociedade - Revista Sophia, Ano 8, nº 31 - p. 34/35)


sábado, 27 de maio de 2017

A AUTÊNTICA ESPIRITUALIDADE (3ª PARTE)

"(...) Quando existe uma perspectiva mais ampla e a vida é vista 'de cima', a visão muda completamente. Num avião, as coisas na Terra começam a surgir juntas, de modo que há cada vez mais conexão. Um quadro maior toma forma e precedência sobre as coisas pequenas. Um véu (uma visão limitada) é retirado e as coisas ficam às claras. 

Quando a perspectiva de nossa consciência é alterada, certas coisas que anteriormente pareciam necessárias tornam-se 'pequenas', porque são vistas em seu lugar próprio. Por exemplo, a competição, a agressão ou o acúmulo de coisas materiais podem começar a diminuir. Ocorre um novo modo de ver que é ao mesmo tempo simples e profundo. 

J. J. van der Leeuw continua: 'A simplicidade da vida real consegue verdadeiramente administrar apenas uma fração dos múltiplos estorvos e complexidades da vida moderna. (...) Não conseguimos organizar nossas vidas sabiamente a não ser que saibamos o significado da vida; continuaremos apenas a buscar riquezas onde elas não existem, a despender nossas energias onde elas só causam malefícios, esquecendo todo o tempo a sabedoria da expressão de Ruskin: 'Não há riqueza senão a vida'.'

Isso sugere que a 'verdadeira vida', experienciada por uma consciência mais elevada, é em si mesma animada pela simplicidade, o que contrasta diretamente com a complexa existência mundana de tanta gente. Será que esquecemos o que é simplicidade? Pode-se gastar muita energia com coisas que no final das contas não são tão importantes. Na genuína vida espiritual as ações tornam-se mais restritas. Mas, paradoxalmente, a vida interna da pessoa torna-se mais profunda e muito mais rica. Uma vida de 'ocupação' torna-se uma vida de plenitude. (...)"

(Linda Oliveira - A renovação da sociedade - Revista Sophia, Ano 8, nº 31 - p. 33/34)


quinta-feira, 18 de maio de 2017

AMAR É CONHECER (PARTE FINAL)

"(...) No Oriente diz-se, tradicionalmente, que os cinco principais inimigos internos são o desejo, a ira (que inclui irritação e frustração), a ganância, o orgulho e o ciúme (ou inveja). Cada uma dessas palavras pode incluir muitas outras similares. E, se olharmos para elas, descobriremos que todas estão baseadas no pensamento.

Desejo é pensamento. Não existe desejo quando se experimenta algo que é agradável. O pensamento chega pouco depois, quando lembramos a sensação do sabor de um doce e dizemos para nós mesmos: 'Quero experimentar novamente.' Esse processo prossegue indefinidamene. Segundo Krishnamurti, dizer 'eu quero' é tempo. Tempo, pensamento, desejo: ficamos presos nisso, porque quando há uma sensação agradável a mente se agarra à memória da sensação.

Segundo Colin Tudge, os políticos falam que a competição é uma coisa boa, porque é natural. Isso está de acordo com o quadro mental de Darwin. Mas Ida, a fóssil quase primata, sugere que todas as criaturas surgem de uma origem comum e são aparentadas. Algumas pessoas acham  essa ideia desagradável. Alguns religiosos consideram-na uma blasfêmia. Mas São Francisco falou dos animais e das plantas como sendo seus irmãos. Tudge afirmou que todas as criaturas vivas são aparentadas. Se admitíssemos que os seres de que não fazemos caso são nossos parentes, nós os trataríamos de maneira diferente. Isso seria bom para todos. Mas os humanos gostam de pensar que são especiais.

A ideia defendida por Tudge não é nova, porque do ponto de vista da milenar filosofia Advaita, toda a vida que conhecemos deriva da mesma fonte, da verdade invisível, eternamente real. A Teosofia, ou sabedoria divina, baseia-se  nesses valores e nos leva a compreender essa verdade em nossas vidas. Quanto mais pudermos seguir esse sábio caminho, menos dores sofreremos. Os sábios não conhecem a dor porque conhecem a verdade da unidade. A unidade é o que todos os instrutores espirituais ensinam. Isso é o que significa abrir os olhos à luz." 

(Radha Burnier - Amar é conhecer - Revista Sophia, Ano 8, nº 31 - p. 25)


quarta-feira, 17 de maio de 2017

AMAR É CONHECER (2ª PARTE)

"(...) Buda afirmou que os pensamentos de amor poluem a mente, enquanto o próprio amor limpa e purifica. Krishnamurti falou que quando a ação surge do pensamento não há amor. Nos seus Comentários sobre a vida, ele disse que os sentidos de tempo, espaço, separação e dor nascem do pensar, e que só quando cessa o pensamento pode haver amor.

Buda não explicou em detalhes o que é o amor, mas explicou a causa da ausência de amor na vida do ser humano. A abordagem de Krishnamurti é diferente, mas tem por meta o mesmo estado de bondade e amor. Ele nos instiga a descobrir que o que cria a servidão não é o amor verdadeiro, mas a sentimentalidade, o apego às pessoas num relacionamento emocional. Quando existe esse tipo de sentimentalismo e de autopromoção por meio de outra pessoa, a coisa pode facilmente mudar e se tornar ira, frustração ou crueldade. Podemos encontrar muitos casos semelhantes na vida comum, quando o assim chamado amor transforma-se em animosidade e depois em ódio.

Portanto, o que chamamos de amor traz consigo complicações e tumulto interior. Krishnamurti disse: 'O que vamos fazer é descobrir o valor do conhecido, olhar para o conhecido. Quando se olha para ele com pureza, sem condenação, a mente liberta-se do conhecido. Somente então podemos saber o que é o amor.' O teste talvez esteja na sensação de perda, de solidão, se essa posse não mais for possível. E o teste maior está na morte, quando ela traz o sentimento de que tudo foi perdido.

Helena Blavatsky afirmou, num de seus escritos, que, 'quando existe amor verdadeiro, não há absolutamente qualquer senso de separação'. A pessoa pode se examinar e verificar se o senso de separação é realmente compatível com o amor, ou se ele surge junto com o desejo de possuir. Quando há o sentimento de que algumas pessoas importam tremendamente e outras não, será isso realmente amor, ou alguma forma de busca egoísta? (...)"

(Radha Burnier - Amar é conhecer - Revista Sophia, Ano 8, nº 31 - p. 25)